quinta-feira, 14 de julho de 2011

Luíza, a lua e a linha.




Se esperteza tivesse nome, eu a chamaria de Luíza. Peralta desde o nascimento, ela seria uma menina andarilha ao abrir dos olhos, ainda que ao redor de seu quarto. Colocaria a alma em cada vestido que rodasse, o brilho em cada sapato que subisse. E, no laço do cabelo, um sonho da cor da lua. Traria quatro linhas nos olhos, uma pra você; uma, duas, três pra mim. Mas a linha que seria sua, essa Luíza capricharia na textura, amassando pequenos beijinhos no papel crepom para que, contando de trás pra frente e de frente pra trás, eles espantassem a tristeza.


Se pureza tivesse nome, eu a chamaria de Luíza. A veria pela janela pulando os anos na sua corda, cantando "Moça bonita" e, de pés descalços, pisando a história do tempo. Ela brincaria de boneca com a sabedoria, e, enquanto tomariam chá, perguntaria da tia Prudência e do primo Entendimento. Mas não pense mal da menina, ela não faria por zombaria, pois se respeito tivesse nome, eu mudaria seu gênero para chamá-lo de Luíza. A pequena entenderia tão bem das pequenas coisas, da simplicidade criada no todo, que brincaria com o sério, só para vivê-lo intensamente, e, assim, torná-lo real nela.




Sabedora de provérbios, de gênesis, colossensisses, ela gostaria de pensar que o Criador gerara seu poema inicial num dia de chuva, pois a chuva molha o brilho da lua e a lua faz o belo pensar. Por isso ela nascera tão pensadoura, curiosa e salpicada de pingos já secos.




E, de tanto pensar em Luíza, ela tomou corpo e veio saracotear na minha sala. Veio como um daqueles sonhos de infância, com cheiro de boneca de morango. Com uma bolacha Maria entre os dentes, me pergunta:


"Por que teus olhos são sérios?"


"Ora, porque sempre sorri com a boca, menina"


"Mas a boca não tem que sorrir, ela tem que dizer. Quem ri são os olhos"


"Onde já se viu boca não sorrir?"


"Onde já se viu olho não dar risada? Não adianta dizer um sorriso se a gente não enxerga o que sorri"




E, saltitando, ela me entrega uma linha cheia de papel crepom enroladinho, enquanto eu sinto o peso dos meus olhos carrancudos.


"Luíza?"


"doce pergunta pro doce qual é o doce mais doce..."


"Onde você mora?"




Ela não responde. Apenas cantarola ao redor do espelho minha canção favorita da infância.




3 Piruetas.:

Nathacha disse...

Seguindo seu blog querida :)

Se puder retribuir, ficarei grata!


Um bjo


Nathacha Phatcholly

Renato Ziggy disse...

essa Luíza me soou curiosa. a evolução dos teus escritos também...

Vanessa Valença disse...

"Onde já se viu olho não dar risada? Não adianta dizer um sorriso se a gente não enxerga o que sorri"

Adoreiii!!
Passando por aqui novamente. Seu blog me encanta. Beijos..

Vanessa (Blog Sensibilidades)

 

Blog Template by BloggerCandy.com