sábado, 16 de maio de 2009

Do you wanna dance?

Tinha som de noite cheia de estrelas. Tá, eu sei, tocava uma música dançante e as pessoas falavam todas juntas, mas para mim era noite de estrelas. Eu mal sabia como caminhar, com medo de que o vestido rasgasse como naqueles filmes antigos. Sabe, nunca fui boa com vestidos. E nem com sapatos e maquiagem. Para mim, o jeans e o tênis eram a minha área de domínio e nunca precisei de nada mais que isso. O Pedro, meu vizinho, sempre disse que eu devia ter nascido menino, até porque nossas brincadeiras eram as mesmas, desde o futebol até as bolas de gude. Engraçado ele dizer isso, porque eu também pensava assim. Cada vez que chegava na escola e via as meninas com aquelas saias pregadas e mochilas rosadas, eu me tremia toda pensando que um dia tivesse que me vestir daquela forma.
Minha mãe sempre disse que um dia eu ia mudar, que eu ia crescer. Uma vez chegou em casa trazendo um embrulho feito com papel lilás e fita cor-de-rosa. Eu, que sempre gostei de presentes, rasguei o papel com euforia, mas não pude evitar uma expressão duvidosa quando me deparei com uma pequena caixa, com flores pintadas. Era linda, com certeza. Abri a tampa com cuidado e...ai, quase vomitei. Estava repleta de tiaras, presilhas, fitas e maquiagens! Encarei minha mãe como quem ia explodir. Ela delicadamente me respondeu:
- Bel, calma. É só para que se você quiser um dia, saiba onde encontrar.
Nem preciso dizer a crise de riso que essa história causou no Pedro. Como minha mãe podia fazer isso? Eu não queria usar, não era pra mim. Não é porque todas as meninas de 14 anos usavam batom que eu deveria fazer o mesmo! Me revoltei, e toquei a caixa para debaixo da cama. Lá ela ficou por muito tempo, a ponto de eu esquecer sua existência por um ano. E, sinceramente, nunca senti falta da maquiagem e muito menos daquele monte de "frufru" existentes no mundo feminino. Nunca quis saber se eu era bonita. Nunca... até conhecer o Marcelo.
Marcelo não era o tipo de menino que se tornava o mais popular da escola, mas era daqueles que arrancavam suspiros quando passava. Aquele cabelo castanho que caía nos olhos, aquele jeito de andar... tudo nele era uma combinação do que eu mais gostava. A primeira vez que o vi foi na locadora, perto de casa. Eu estava indo pegar meu rotineiro filme de fim de semana, quando o vi lá, com as mãos cheias de filmes que eu a-d-o-r-o, tentando decidir entre eles. Eu podia ter opinado, mas preferi ficar de longe, só observando, era tão bom! Depois fui descobrir que estava na mesma escola, três anos a frente do meu. Sim, ele já tinha 17 anos, enquanto eu tinha recém tinha completado 15.
Então eu mudei. Não sabia explicar por quê, mas tudo era novo, tudo tinha gosto, cheiro, cor de Marcelo! Todas as músicas cantavam sobre ele e tudo que eu lia, até livros da escola, tinha algo que me fazia lembrar. Pedro me perguntava sempre por que eu havia começado a agir como boba, mas eu enrolava. Até que um dia, quando estávamos saíndo da escola, eu disse para ele:
- Não ande tão próximo de mim, podem pensar que estamos juntos e não quero que pensem isso.
- Juntos? Mas estamos juntos...
- Não, Pedro, digo juntos...juntos.
- Together, together? Você e eu? Ah, por favor, Bel! - disse ele enquanto se ria, Pedro tinha essa mania de meter inglês com português. Até que respirou fundo e disparou: - Como se eu não soubesse que você e metade da escola se derrete pelo tal Marcelo, baby.
Pronto, eu estava descoberta. Corei, fiquei nervosa e saí apressando o passo. Por dois dias não quis nem olhar para a cara do Pedro, embora ele insistisse. A partir daí me afastei dele, mesmo sem querer. Era complicado demais compreender o que eu sentia, quanto mais compartilhar isso. E, depois de uma vida inteira de jeans, comecei a me interessar pelas saias. E pelos brincos. E pela minha caixa... Claro que isso não aconteceu com rapidez, mas aos poucos.
Quando começaram a anunciar um baile na escola, fiquei nervosa. É, eu também nunca soube dançar... mas não podia ver essa chance de estar mais perto do Marcelo, afinal ele ia se formar! E pela primeira vez, pedi a minha mãe um vestido. Tirando o fato de que ela chorou, o restante foi mais fácil. Fomos à uma loja na capital da cidade e eu deixei que ela escolhesse, claro.
Chegado o grande dia, lá estávamos minha mãe, a caixa e eu. Era o momento da maquiagem. Fechei meus olhos e pude sentir aquelas "quase cócegas" que me causava o pincél da sombra, a sensação do batom. Quando terminei de me arrumar e encarei o espelho, quase morri. Sim, eu estava bonita ou eu era bonita, sei lá. Meus cabelos estavam presos com uma presilha delicada, com algumas pedrinhas. O vestido era de alças, simples, mas bonito. E meu rosto... estava diferente demais.
Cheguei ao baile e percebi vários olhares curiosos, mas eu só procurava um. E vi, debruçado em uma mesa e de camisa azul, com os olhos mais lindos que eu já havia visto. E ele sorriu! Ah, foi pra mim! Marcelo sorriu pra mim! Sentei-me com cuidado e esperei. Todo mundo parecia se divertir, mas eu não. Eu só queria que ele reparasse em mim e mais nada.
Começaram as danças rápidas e depois as lentas. Eu senti um calafrio percorrer todo o meu corpo quando percebi rapazes que tiravam as moças para dançar. Até que vi Marcelo se levantar e caminhar na minha direção. Pensei que ia desmaiar de tanta emoção. Cada passo que ele dava me acelerava os olhos e eu mal podia me controlar. Quando estava quase na minha frente, não resisti e me coloquei de pé, nervosismo talvez. Fechei os olhos para ouvir aquela voz e pude ouvir:
- Jéssica, meu bem, vamos dançar?
Abri os olhos. Jéssica? Que Jéssica?
- É comigo?
- Sim, é Jéssica, não é?
- Não, é Bel.
- Bel é apelido né? E o nome? - Eu detestava dizer todo o meu nome.
- Muriel.
- Muriel? Putz, que nome estranho! Que tem a ver com Bel?! Vamos dançar, Muribel!
Muribel? Como ele conseguiu piorar meu nome? Bem, lá estava eu com Marcelo, o menino dos meus sonhos. Começamos a dançar, ou tentar dançar. Eu tentei pedir paciência e dizer que estava aprendendo a dançar, mas ele estava mais preocupado com o público que o via. Não dizia nem uma palavra durante a dança, apenas sorria e balançava a cabeça como quem cumprimentava. A música ali, toda romântica; eu ali, toda bonita; e ele nem reparava. De repente me senti estúpida demais, e achei ele mais estúpido ainda. Resolvi tentar conversar.
- Sabe, sempre achei você legal.
- É? Todo mundo costuma achar.
- Vi você na locadora da rua Miler uma vez.
- Ah, aquela velharia? É, pego filmes pro meu pai lá. Me dá uma lista todo fim de semana pra que eu busque.
Oh, droga. Me sentia ridícula demais. Era minha locadora favorita.
- Então, pretende continuar estudando saindo daqui?
- Estudar? Já fiz isso demais, quero arranjar mulheres e curtir bastante! E você Jéssica, vai fazer o quê quando sair dessa festa?
- Ah, desculpe, estou me sentindo meio tonta. Preciso parar.
Meu mundo caiu. Marcelo não tinha cérebro. Eu não tinha cérebro. Voltei pra cadeira que estava e fiquei pensando em como fui idiota. O cara não sabia nem meu nome e eu havia mudado tudo por ele. Foi quando eu senti um perfume diferente e alguém parou na minha frente.
- Do you wanna dance, moça? - disse aquela voz conhecida.
Me deu vontade de rir quando vi Pedro todo arrumado. Acho que ele teve vontade de rir também. Levantei e fui com ele até o salão.
Dançar com Pedro foi algo totalmente novo. Enquanto ele me guiava devagar, eu pude reparar quão bonito ele havia se tornado. Já não estava com tanto jeito de menino chato e irritante. Seus olhos já não eram os mesmos. E eu estava bem. Não precisava de vestidos para que Pedro soubesse quem eu era, ele sabia.
- Vi você dançando com o Marcelo. - comentou.
- É, eu tentei. Mas ele dançava mais com ele mesmo do que comigo. Deve ter me tirado para dançar só porque... bem, eu estou diferente hoje.
- Porque está linda, você diz? - Eu corei- Bel, você não está linda, you are beautiful.
Ali estava o meu amigo Pedro. Não precisava de maquiagem. Ele era ele, eu era eu. Descansei minha cabeça no ombro dele, e me deixei abraçar.
Tinha som de noite cheia de estrelas. Tá, eu sei, tocava uma música dançante e as pessoas falavam todas juntas, mas para mim era noite de estrelas.
E eu descobri que talvez eu quisesse estar junto do Pedro. É, junto, junto. Ou como ele diz, together, together.

4 Piruetas.:

Iana Coimbra disse...

Uma graça!

Pri C. Figueira disse...

Que texto fofo!
Lindo demais!
Adorei!

Bjus

Andréia disse...

adoro esse tipo de texto

beijo grande

Jaya disse...

Te ler, Ká, me faz o mesmo bem, também.

Beijo.

 

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