quarta-feira, 11 de março de 2009

Entre Pai e filho. [Parte I]

Eu nem sei por onde começo, nem sei o que dizer. Mas me aconteceram tantas coisas, pai, que eu precisei retornar. Eu engoli o meu orgulho, aceitei os meus erros, lavei meu rosto com entendimento, deixando cair as escamas de ignorância que cobriam os meus olhos.
Naquele dia em que parti, eu achei que te levava comigo. Pensei que traçar meu próprio caminho fosse o correto, o óbvio. Pensei que os tombos seriam mais válidos se eu os tivesse com minha própria força e que distante de ti seria mais fácil, mais maduro. E eu fui, gastando tudo que tinha da forma que achava, me saciando.
Eu me lembro do primeiro centavo que doei de mim. Lembro, porque pude ouvir quase que claramente a tua voz dos meus tempos de infância. Naquele momento em que eu me rasgava em vão, senti falta daquela mão paternal que me trazia de volta quando eu, menino, tentava atravessar as ruas sozinho. Eu sabia que me entregava em vão, sabia que gastava o melhor de mim para depois perdê-lo. Eu pude sentir os teus olhos cansados, de longe. Mas prossegui. E, com o tempo, já nem me incomodava a companhia de estranhos, a distância familiar, o desassosego da alma. Eu só queria a mim, inteiro, satisfeito.
Mas a minha companhia não me é suficiente, pai. Senti fome. Senti frio. Fome dos teus conselhos, frio do teu zelo constante. E percebi que sair de casa não é sempre a melhor forma, é preciso estar adulto para encarar o mundo. E, quando me lavava da lama que se transbordava de mim, lembrei-me de ti. Lembrei da tua face rígida feito mármore enquanto me via ir embora, segurando as lágrimas, mas sem desviar os olhos.
E cá estou, meu pai. Faminto de toda a vida que me tiraram, sedento de toda a força que perdi, sujo de todas as dores que me ferem a alma e cansado da minha própria existência. Pequei contra ti e já não sou digno de ser chamado teu filho. Me recebe, meu pai, como um dos teus servos menores, pois preciso aprender mais contigo para que possa crescer. Lembra dos meus tombos de infância? Minhas birras, meus temores? Vê-me como o menino de outrora, ensina-me o que o mundo não pode ensinar, o que só um pai pode passar para um filho.
Quero todos os conselhos que minha ignorância recusou. Recebe-me.



Continua. Baseado em Lucas 15: 32. Quer ler? Leia aqui.

8 Piruetas.:

Pri C. Figueira disse...

Ká, que texto mais lindo!
Sabe, fico feliz em ler isto pois testifica algumas coisas em meu coração, coisas que o Pai tem falado comigo!
Essa tua história lembrou-me da experiência que tive logo no inicio do ano, onde Deus falou tanto sobre paternidade comigo (e continua falando...) onde foi uma das experiências mais lindas com Ele, onde ministrei com meu pai terreno, falando exatamente sobre essa palavra... o Filho Pródigo!

Não há palavras e não há como descrever o que senti... o Amor, o carinho, o cuidado que Ele tem, sabendo que não importa os meus erros, Ele me ama e seu amor permanece INABALAVEL!
E Ele anseia, deseja, arde pelo retorno do filho que tanto ama...

Não vou me estender mais (se não, não vou parar..rs), apenas saiba que seu texto tocou-me muito e foi lááá no fundo testificando o que Ele tem falado!

Deus te abençoe linda e saudades tuas!

Bjinhusss...

Mariana Dore disse...

Esse texto me tocou muito também, pois hoje sei que ele nunca fechará as pportas pra nenhum de seus filhos que estejam realmente querendo sua companhia e arrependido de ter se afastado por pensar que seria melhor vivr sozinho, volta pedindo perdão.
Ele jamais nos abandona seja qual for a circunstancia.
Ahhh texto lindo demais!

;D

Larissa Cruz disse...

Me tocou na alma esse texto, a gente pensa que sozinho vai a algum lugar, que esquecer alguns e algumas pessoas...é viver, é ser independente...!
Esquecemos dos dons divinos, esquecemos de amar respeitando as diferenças!

"Mas os pais devem saber que filhos são fechas atiradas..."
e os filhos devem saber que os pais são o nosso chão!

Junkie careta disse...

Engraçado...

Eu não dei nem uma conotação religiosa ao texto. Li e lembrei do meu pai(que erradamente foi me dado como avô), da minha relação com ele, do silêncio que fala mais que mil palavras e do olhar firme, porém doce e sempre afetuoso.

Lembrei do pai que quero ser pro meu filho,minha filha. Muito comovente.

Aproveito pra te dizer que voltei a escrever.Tô falando de pessoas intensas como vc no meu último post, e do preço que se paga por isso, e as consequências que essa intensidade tem nas nossas vidas e na de quem nos rodeia.Apareça quando tiver um tempinho.

Bjo

Andréia disse...

adorei esse texto justamente pq estou martelando um parecido


beijos

Canteiro Pessoal disse...

Aqui voejando encontro seu blog e que espaço vival.
Que escrito que tem pura veracidade e conduz para uma reflexão intensa.
Há uma frase neste espaço que chamou minha atenção; "MORRER NÃO É NADA. HORRÍVEL É NÃO VIVER".
Jovem Inegociável, farei concerteza outras visitas, pois tenho convicção que daqui aprenderei coisas valiosas.

Ósculos e amplexos !!!

Jaya disse...

Ô, Ká! Que meus olhos marejaram, aqui... E isso já diz muito, por si. Não uso de palavras, hoje. Conto do sentir, apenas.

[E aguardo o restante].

Beijo, frô.

ALF disse...

Que lindo Ká. Uma releitura bastante interessante maravilhosa.

Devo confessar que essa parábola é uma das que mais gosto. Pela mensagem em si, que é fascinante e emocionante.

Ótima escolha.

Beijos

 

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