segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Vaidade.

Lisa não conhecia a palavra vaidade. Nascida no interior da cidade e criada pela avó junto com três irmãos mais velhos, não tinha tempo para descobrir isto. Tudo o que sabia de si se resumia em ser mulher apenas por não ser homem, porque a natureza quis assim.
Suas roupas na maioria eram sobras dos irmãos, calças batidas e camisas surradas. Tinha um único vestido, usado para ir à igreja aos domingos, era azul com fitas laranjas, sendo que algumas fitas já tinham sido perdidas. As únicas coisas que não podia usar dos irmãos eram os sapatos, o que muito a irritava, pois achava que corria menos que eles por causa do tamanho de seus pés. O cabelo da menina era castanho claro e a vó insistia que ela o deixasse comprido, porém era preciso esconder as tesouras da mão dela, que insitia que queria usá-lo curto.
Sua única imagem feminina, a vó, era uma mulher amorosa, porém amarga. Sua forma de demonstrar amor era satisfazendo as necessidades, admoestando as molecagens e ensinando o que era correto fazer. O irmão mais velho contava já vinte e sete anos, seguido por um de vinte, um de de dezessete e Lisa com treze. A mãe fugiu quando Lisa tinha três anos e o pai faleceu fazia dois anos.
Quando ela teve sua primeira menstruação, saiu correndo pela casa gritando que estava doente, o que ainda pensava apesar das explicações da vó. Na escola não costumava ter amizades com meninas (que eram em pouco número), não entendia a graça de brincar com um pedaço artificial de gente quando se podia jogar bolita ou correr pelo parque. A avó não tinha tempo para ver que a menina não sabia que era menina e todos achavam normal. É que Lisa era tão inteligente, sensata e íntegra que parecia nada haver de errado com ela. Era ela quem temperava a grossura dos irmãos, quem tirava os sorrisos e dava luz à casa. A simplicidade, o carisma, isto tudo tornava-a bela e os irmãos reconheciam que nasceria em Lisa uma grande mulher bela não apenas de face, mas de alma.
Porém, foi Rodrigo, o irmão mais velho, quem percebeu algo errado na menina. Ele viajava constantemente até a capital e em um de seus retornos ele trazia Suzana, sua namorada da cidade, para a primeira janta com a família. Lisa observava a mulher de forma fria e qüieta durante a janta, imitando silenciosamente os gestos da cunhada. Suzana usava um vestido em tons de verde, era loira, alta e nitidamente linda. Aquilo era totalmente novo para Lisa, ela não sabia como comportar-se e, não mais suportando, saiu correndo para o quarto onde permaneceu por dois dias.
Após o acontecimento, Rodrigo resolveu levar Lisa para a capital e morar com ela e Suzana lá. A menina não quis aceitar, mas vendo que não tinha escolha, cedeu. A chegada na cidade fez com que os olhos de Lisa ganhasse um novo brilho, nunca havia visto tanta luz, tanta gente e tanto barulho. Rodrigo levou a irmã para comer um hotdog, coisa barata, mas que para Lisa simbolizava o céu. A menina devorava o pão com tanta vontade que Rodrigo resolveu que era melhor guardar uma parte para comer em casa, assim evitava olhares.
Depois de uma semana de televisão e fastfood, o irmão a matriculou em uma escola. A menina colocou seus melhores tênis, uma camisa de suas largas, a bermuda cheia de bolsos (sua favorita) e prendeu os cabelos num quase coque preso com uma borrachinha. Chegando lá, percebeu que todos os olhos a encaravam e que nada era como na sua antiga escola. Os rapazes não pareciam preocupados em correr nas ruas, mas andavam todos com tênis grandes, bonés afundados na cabeça e calças que pareciam não servir por quase chegarem aos joelhos de tão caídas. As moças contrastavam o contrário, pois vestiam calças que deviam ser de uns três números a menos, de tão justas. Lembrou-se de Suzana ao olhar para elas, pois tinham nos rostos o mesmo estilo de maquiagem, além de terem nos pés tanta madeira que mal conseguiam caminhar. Lisa ficou em silêncio, sem saber como se portar e nem o que dizer. Se fossem apenas as roupas ela suportaria, mas as meninas eram também idiotas, sendo que não ouviu delas nem uma palavra válida durante toda a aula. Passaram-se dois meses assim, e ela não tinha nem uma amizade, antes pelo contrário, era o alvo dos principais risos. Certa vez resolveu colocar seu vestido de domingo e soltar o cabelo, tudo para que conseguisse ao menos cessar os risos, mas ainda sim teve que ouvir piadas sobre o vestido e o quanto suas pernas eram cabeludas. Ora, jamais havia notado nas próprias pernas até ver as pernas daquelas meninas. Chegou em casa e resolveu depilar-se, mas acabou ganhando cortes nas pernas, o que Suzana reparou e resolveu ajudar a menina.
Foi então que começou. Lisa foi pela primeira vez ao shopping e contemplou as primeiras vitrines. A cunhada inicou sua vítima no mundo feminino, escolhendo roupas, fazendo cortes nos cabelos... riu de forma intensa ao saber que a menina jamais havia pintado as unhas e nem mesmo feito as cutículas. No outro dia, Lisa vestiu sua calça suplex, soltou os cabelos alisados e aprendeu como ajustar os pequenos seios no "top". Nos pés colocou um tamanco pequeno, porque ainda não sabia como andar nas plataformas maiores. No caminho da escola, parou e perguntou-se se queria mesmo fazer isso...afinal, era ridículo tudo aquilo, nada era dela, nada era ela. Mas queria amizades e por isso resolveu prosseguir.

Incrível o impacto que sentiu ao entrar na sala de aula. Misteriosamente, todos a cumprimentavam e até garotos a olhavam de forma diferente. Ao sentar-se, se surpreendeu quando algumas meninas a cercaram e foram logo puxando conversa:

- Oi Lisa, vamos almoçar juntas hoje?
- Lisa, vamos no shopping depois da aula?
- Lisa, você já tem festa para o sábado?

Não entendia. "Então era só isso, só o que eu vestia?", sentiu-se horrível. Embora nada do que falasse fosse sobre o que realmente achava interessante, deixou-se levar. E os convites foram aumentando, as amigas, festas, calças e maquiagens. Com o tempo, aprendeu a pintar-se sozinha, começou a pedir ao irmão revistas, esmaltes, bolsas, Cd's, pôsters e também conseguiu prática em andar de salto. Rodrigo ficava feliz, e de seu salário começou a dar uma mesada para que a menina pudesse sair com as amigas. Lisa então começou a usar perfumes, brincos, marcas... os livros deram lugar para as incontáveis roupas e o quarto tornou-se lugar de reunião para que as amigas se juntassem para falar de tudo aquilo que mais importa no mundo: garotos, moda e cabelos. Lisa foi perdendo seu brilho no meio de tantos batons, e a sua simplicidade já não tinha mais espaço devido ao excesso de roupas. A chapinha não alisava apenas os cabelos, mas tudo nela ficava mais alisado, mais sem graça. De repente as unhas se tornavam mais importante que as palavras e ter um corpo bonito mais importante do que comer na mesa com a família.
Quando Lisa ia visitar a avó, os irmãos não mais a viam como antes. Tornara-se arrogante, fútil, mesquinha e incrivelmente fresca. Não mais queria passear no campo, nem sentar para ouvir histórias, muito menos sair para ver a lua ou conversar sobre os livros. A noite agora tinha mosquitos, o campo agora tinha sujeira, os cães eram bestas, a casa mal decorada e a avó velha. Nada era mais igual, mas Rodrigo achava normal. Ter Lisa parecida com Suzana era como ter duas Suzanas e isto não era mal.
O tempo passou e Lisa cresceu. Quando tinha treze os irmãos diziam que dela nasceria uma grande mulher muito bela, mas talvez voltariam atrás se a vissem neste momento. Lisa tem seus vinte e nove anos e está indo para sua 7º cirúrgia plástica. É solteira, amante de um homem casado e muito rico que paga seu guarda-roupa e aguenta sua falta de inteligência em troca do seu corpo. Mas foi bom achar este homem, pois conseguiu parar de se preocupar em trabalhar (o que definitivamente não conseguia). Assim pode ter todo o seu luxo sem se importar com o amanhã. Se você olhar com cuidado para a cabeceira da cama dela, verá que toma muitos remédios. Quase todos para emagrecer, mas temos também anti-depressivos e calmantes. Repare que antes de sair de casa ela está indo mais uma vez no banheiro. É que faz quase quinze dias que está tentando vomitar quando come demais, para facilitar seu emagrecimento e tentar se sentir melhor. Acabou de limpar o rosto e está mais uma vez na frente do espelho, repare como se arruma, parece que o mundo inteiro só gira ao redor da curva de sua cintura. Está saindo de casa agora, rumo à clínica de sua cirúrgia. Repare que vive sozinha, não quer filhos para não estragar o corpo e nem estressar a vida. É artificialmente bela, mas não queira conhecê-la. Você irá se decepcionar ao perceber que conheceu apenas uma carcaça de algo que poderia ser uma pessoa.

É que vaidade demais anula toda a possibilidade de existência.

4 Piruetas.:

Pri C. Figueira disse...

Uauuuu...
Sem palavras para seu texto!!

É triste ler uma história assim, mas infelizmente é algo que hoje vemos se repetir todos os dias!
Crianças que se vestem como “mocinhas”, desde bem pequenas já são incentivadas a agir assim, pintam as unhas, se espelham em quem não tem nada para refletir, perdem a infância em nome da vaidade!
Ah, é incrível, pois quando seus pais vêem os filhos copiando a cena de uma novela, por exemplo, acham “bonitinhos” e não percebem o grande mal que está sendo inserido nos pequenos!!
O mais triste é que na grande maioria os próprios pais, responsáveis incentivam as meninas a serem assim, até sem perceber, em pequenas atitudes de seguir a “tendência”, o que todas usam, o que todas fazem!
É para entristecer, ver uma geração se corromper em nome da vaidade, em satisfazer o seu ego e com os valores completamente distorcidos!!!

Ahhh, seu texto é a realidade de amanhã e de muitas hoje!

Bjs flor!

jeffao_araujo disse...

Quando paro pra pensar sobre os tipos de textos e livros que gosto de ler, penso naqueles que "tirem de mim os mais diversos sentimentos sem pedir minha permissão". E foi justamente o que o seu texto fez.
É lindo.
É perfeito.
É fantástico.

"É que vaidade demais anula toda a possibilidade de existência."

Jaya disse...

Ká,

Uma crítica tão bem dosada em sua acidez quanto essa, raras foram as vezes que eu li. E eu cheguei olhando o tamanho do texto e pensei: que imensoooo! [Parece eu]. Aí, qual não foi minha surpresa quando comecei a ler e o texto já tinha acabado. Poxa! Tudo isso é coisa da tua narração bem arrumada. É tudo tão sincronizado a cada pontuação, sabe? Fiz cenas a cada parágrafo. E isso, junto com a mensagem que o texto carregou, me deixou profundamente encantada.

Será que você já teve a oportunidade de conviver com várias Lisas, assim como eu, no meu dia a dia? Já teve vontade de vomitar com suas palavras vazias? Porque, Ká, no texto, ela, carcaça que é hoje em dia, como você disse, pelo menos já foi uma pessoa. Na época moleca de se sujar com os irmãos. Mas e essas Lisas que são influenciadas assim desde o berço? A infância roubada para não sujar o vestidinho novo que custou uma fortuna?

As Lisas que me cercam, eu bem que queria poder entendê-las com disfunções. Rs. Mas a verdade é que são assim por puro gosto. São puramente fúteis em sua vaidade. E isso é algo que eu não consigo entender. E sinceramente, evito julgar. Evito me aproximar. Deixo sê-las. Sei lá dos possíveis problemas que carregam. E se optaram por escolher tudo isso como uma máscara, uma forma de disfarçar a feiúra que mora em algum outro canto, não sei.

O fato é que eu gostei das tuas posições. Até porque, cirurgia plástica hoje em dia virou moda. Sabe? Como se eu e você estivéssemos desfiando uma prosa na sorveteria, e depois, não tendo mais planos, eu viro pra você e digo:

- Ká, já sei o que a gente podia fazer!
- O que, Jaya?
- Ir ao consultório do Dr. Cirurgião Plástico, e colocar lábios de Angelina Jolie!
- Opa, só se for agora!

Aí a gente se inspira e pronto. Haha. Porque eu já vi cenas quase assim! [Na faculdade]. Banalizou, mesmo.

Fico por aqui, agora. Desculpa se escrevi muito - e muita besteira. É que eu já me sinto em casa. (:

E ah, moça! Obrigada pela doçura em cada comentário teu lá no blog. Você é linda demais! E fica sabendo que todos os encaixes que você faz quando passa por lá, eu passo a carregar comigo, também. É bonito saber que a gente se divide em histórias e poesias comuns.

Te beijo, muito!

Jaya disse...

Ká,

jaya_viana@hotmail.com

[E dessa vez eu deixo só um abraço. Já falei demaaaaaais!].

(:

 

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