quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Raízes.

"...é o Rio Grande, gauchuda amiga!
de bota e bombacha, tapeando sombreio
dobrando os pelegos tapados de terra
é um quebra costela de atorar ao meio
é o sul mais campeiro que temos na vida
é a nossa porfia de prosear no galpão. "
Luiz Marenco.
Local: Centro de Porto Alegre, defronte ao mercado público.
Grupo: DCTG Querência Celestial.
Na foto: Júnior e eu no destaque, seguidos por Elias e Kerol mais atrás e Pri e Leandro mais a frente.
Sensação: "Ah... meu Rio Grande!"

Terra dos meus amores, berço das minhas raízes! Me dói a alma ver-te tão fraco. Teu povo, amante de tua história, vaguea lembranças de guerras que sujaram-te a face, esquecendo tuas lágrimas. Nesta semana vestem pilchas coloridas e exaltam tuas façanhas, borrando teus feitos ao louvarem a destruição como se fosse vitória.
Lembro quando te conheci. Embora já te marcasse com meus passos, saber-te a história fez-me pisar com mais garra. Tornei-me estampa da tradição dos livros e fazia de mim a chaleira de teu mate, enchendo as ruas com o vapor que fervia de meus lábios. Cresci na garupa do teu tordilho, galopando os dias com a bravura de um laçador. Porém, ao invés de curar-te os males, tomei de tuas armas mais vis e fiz de teu manto de sangue uma venda para meus olhos.
Estive cega por tanto tempo, meu pago! Me pilchei de tuas falhas, do egoísmo que cravou teus campos. E, quando percebi, meu amor tornou-se vão. Tornei-me parte dos que te exaltam com os lábios, mas que com as próprias mãos cavam-te covas.
Mas certo dia alguém abriu meus olhos. Um homem cuja as mãos sangravam tuas dores.
Ele então mostrou-me a tua miséria e pude ver que por mais linda que fosse tua história, teu povo ainda é triste, preso ao orgulho de que podem manter-se por si mesmos. E eu, criada por tua tradição, fiquei confusa. Como, de tão formosa que és, podes esconder tamanha dor? Onde guardas tamanha mágoa que tuas ruas disfarçam em flores? Onde ocultas as lágrimas num povo que sorri andanças? Eu vi, meu sul. Vi tuas amarras prendendo-te os pulsos na história, maçonaria de teus governantes, o preconceito de teus guerreiros, o sangue cobrindo o verde dos teus campos e a dor de tuas perdas. Vi teu espírito fraco, pois os homens se encaminhavam à glória carnal. Vi a mesma lança da chula sendo cravada no teu peito. Vi as esporas do gaúcho ferindo o teu lombo. Ah, chorei por ti!
E então, meu berço, o homem que tirou-me a venda limpou-me os olhos. Observei-o chamar seu nome e desviar de ti os espinhos cravando-os em si. Tu querias ser rei, mas não sabias a coroa que te esperava. O homem tomou-a em seu lugar, não para por glória, mas sim para livrar-te do sangue que agora jorrava daquele corpo. Ele então viu os pregos que feriam teu céu, e tomou-os também. Pelos tiros lançados em prol do orgulho, ele doou as mãos e pelas guerras travadas em prol de tua soberania, ele deu seus pés. E descobri que não era só por ti que fazia, mas que outros povos tomaram rumo semelhantes ao teu. O homem pagou a sentença que era tua e de tantos outros.
É semana farroupilha*, terra minha. Teu povo tortura tua memória com festas que te custaram feridas. Mas não chores, eu conheci o homem que aplacou tua dor. Eu ainda danço como quando me vias guria, com o vestido de chita, as flores no cabelo. Porém não mais para louvar-te as guerras, mas sim para que lembres que não és mais escrava de teu próprio orgulho. Tua história certamente é linda, mas dolorida. Eu hoje danço para que teu povo conheça aquele que livrou tua alma da morte. Sim, tens alma, minha raiz! E por essa alma eu estampo tua memória. Amo-te como filha, não das tuas dores, mas da tua redenção.
Renasce, meu Rio Grande. Acorda, minha Porto Alegre. Minha voz é para cantar teu livramento. Há um homem que chama-te pelo nome. Ele aguarda teu povo para escrever uma nova história, onde teu passado será lembrado como passado e não mais um ornamento de futuro. Ele limpará estas lágrimas que correm de tua bandeira e fará de ti terra de manancial.
Minha mão se estende para que caminhemos juntos. E não desistirei de ver brotar em ti um novo pôr-do-sol.

"Feliz a nação (Estado!) cujo Deus é o Senhor, e o povo que ele escolheu para sua herança." Salmos 33.12

*Semana Farroupilha é uma comemoração típica do Rio Grande do Sul em setembro, cujo objetivo é exaltar os feitos do Estado na Revolução Farroupilha ocorrida de 1835 a 1845. Nesse movimento revolucionário que foi proclamada a república sul-Riograndense. A comemoração tem duração de uma semana, e nela as pessoas costumam vestir as roupas típicas da região, encontraram-se em um acampamento feito especialmente para a ocasião e lembrar a data através de uma chama (chamada chama crioula) que simboliza o orgulho e a vitória gaúcha e é acesa no início da semana, passando por várias partes do Estado e sendo extinta no último dia. Também é mais freqüente nesta época as danças e músicas da cultura gaúcha. Para mais informações clique aqui.

4 Piruetas.:

Pri C. Figueira disse...

Ká, que lindo!!!
Seu texto me fez lembrar o MinistrArt Bagé, quando falaste sobre o RS... Lembro que tuas palavras me fizeram chorar aquele dia, por causa do Estado que tanto amo!!
E mais uma vez suas palavras foram no mais profundo da minha alma e me fez sentir a dor desta nossa terra!!!
Lindo!!!

“Obrigada Senhor, pelo teu sacrifício”!

Ps: Gostei do novo visual.. Ah, tenho belas fotos de Bagé de vcs ministrando (DCTG)!

Bjs

Victor Canti disse...

um dos principais papéis da história é ser lembrada para não cometermos os mesmos erros...
este teu texto mostrou muita lucidez quanto ao seu papel, o novo papel que todos têm que ter.
gostei muito de sua interpretação e das colocações que deixou...
beijos

Nanda Kenshin's disse...

Lindo teu amor pelo teu Estado.
Mil beijos x)

Junkie careta disse...

Oi Ká,

Aqui, pras bandas do nordeste, especificamente as coisas não estão muito diferentes. A cultura local encontra-se diluída pra vender pra turistas desavisados e gringos cheios de euro , além do "axézamento" da maioria das danças folclóricas. Irritante pra quem ama suas raízes.
Mais , não há de ser eterno. Uma hora a mesa vira.

Bjo

 

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