sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Triângulo de linhas.



Um ponto reflete seus traços:

- Garçom, um café com leite com duas colheres de açucar, por favor.

"Homem estranho. Tanto tamanho para tão pouca expressão. Detesto gente com cara de nada.
E ainda chove! Logo hoje! Apenas 09hs da manhã e já é noite em Ca
mpinas. Preciso passar na farmácia, não posso esquecer... mas com esta chuva ficará ainda mais difícil.
Deveria ter saído mais cedo. Pegava mais trânsito, mas não estaria na chuva. Aliás, não deveria ter vindo aqui. O café nem é tão bom! Por que vim, afinal?! Eu deveria era fugir deste lugar cheio de lembranças estúpidas. Mas cá estou novamente, lendo as linhas escritas por cafés, cartas e diálogos intermináveis. Lá vem o garçom
, finalmente..."

- Obrigado. Por enquanto só isso.

"Sei o que está pensando, idiota. Não, ele não veio, não estás vendo? Raio de lugar! Raio de garçom! Me pergunte dele duma vez, assim vou poder inventar uma mentira qualquer e me livrar das tuas suposições! Ah... Por que eu vim?! Este lugar se tornou um memorial de estradas. Aqui, sinto como se ele pudesse entrar por esta porta a qualquer momento e eu fingir um encontro casual. Talvez pudesse dizer que estou com pressa e que não havia outra opção para tomar um café. Será que convenceria ou estaria escrito em mim que estou aqui para torturar minhas lembranças?
E ainda chove. Chove como naquele dia em que as palavras choraram. Chove lá fora, chove em mim. Sinto aquele mesmo gosto amargo. E por falar nele...
"

- Moço, não está bem adoçado. Podes por favor trazer-me o açucar? Obrigado.

"Mais duas colheres. Do jeito que ele gostava. Se eu pudesse falar ainda mais uma vez sobre a doçura que ficou em mim... Eu diria que estes hábitos mudados, estas frases não ditas, estas estradas distantes... Tudo ficou. Ele não ouviria, provavelmente e eu nem deveria dizer. Melhor deixar a vida correr. Uma hora ou outra ele vai encontrar quem adoce o seu café com leite. Quem use das palavras para fazer uma vida.
Ah! Eu falaria menos de mim! Eu choveria menos naqueles olhos... Nem me deixaria voar em narrativas, crescer em gestos! E não estaria aqui, presa em lembranças, na mesma mesa de tantos tecidos trançados e planos forjados. Pensando naquela estação, nas flores... Esta cadeira vazia na minha frente, eu sei porque a olho tanto. É a falta. E não vai mudar.
Este café não sorri mais. Minha vida agora sorri pela metade.

E este lugar, preciso parar de vir aqui... Hoje é a última vez! Dificilmente vou achar janelas como estas, tão limpas. Vejo as ruas da cidade mesmo com o bafo da chuva. Queria era ser como elas, limpa...
Está acalmando. Acho que já posso ir. 09:35, dá tempo de passar na farmácia antes de chegar no escritório."


- Adeus, até amanhã.

Um outro chove as palavras:

"Vai entender porque que essa moça está com essa cara de quem comeu e não gostou. A gente já tem que acordar às 5:00 da manhã, pega um trânsito do diabo e ainda enfrenta chuva, pra ter que chegar aqui e dar de cara com esse bando de burguês mal humorado que nasce com o traseiro virado pra lua. Essa aí deve tá precisando de um macho. Dois dias que ela baixa aqui e nada do namorado aparecer. Então fica aí, com essa tromba, como se a falta de açúcar na vida dela fosse nossa culpa. Ela que é azeda demais! Se fosse filha minha, eu dava logo uns sopapos, pra depois os outros não terem de aturar mal humor de mulher recalcada por causa de homem"

Pô, garçom, cadê meu misto quente? Eu bato cartão às 11:00, pô. – diz o jovem da mesa 4.

– Só um momento, senhor, que vou ver se já está pronto.

"Mané filho da mãe. Se eu pudesse, metia a mão nesse aí também, mas deixa estar... Hoje as coisas andam bem e não vou esquentar a cabeça por causa de um moleque. Graças a Deus, hoje tá mais tranqüilo; pelo menos pra isso a chuva prestou. É bom que de vez em quando dá pra sentar ali atrás do balcão enquanto cliente não chega. Não tô mais agüentando ficar de pé andando pra lá e pra cá esse tempo todo não. Quando a idade chega, o corpo da gente começa a apitar. É como diz o Timbeca: é a tal da PVC. Porra da Velhice Chegando. Mas fazer o quê, alguém lá em casa tem que pagar as contas."

E outro derrama histórias:

"Por quê? Por que eu sou assim? eu sabia que deveria ter ido. Ela..ela não vai estar lá...eu sei, mas pq então eu insisto em ir? Nesse dia chuvoso, ela disse que queria conversar, mas eu fiquei com medo. Sei que terminou, mas eu queria ter a certeza que não, pelo menos não pra mim, forçar ela a me ligar de novo, ou ligar pra ela, nem que seja pra pedir desculpas. Ah,o café. Esta mesa, por que tenho a sensação de que ela esteve nessa mesa? Sinto o perfume dela... o mesmo daqueles últimos dias... o cheiro é doce,mas é triste, como ela.


- Garçom, por gentileza, me vê um café bem forte, não quero açúcar, preciso acordar de um pesadelo...

"Esse garçom. Eu deveria falar com ele. Sim, ele deve ter atendido ela! Talvez...não, o que ele pode fazer? Dizer “senhor, varias moças vem aqui todas as manhãs”? não me ajudaria em nada isso. Mas...eu queria falar, nem que fosse pra dizer o que eu estou sentindo, desabafar,ele deve saber o que fazer, um monte de gente deve falar com ele sobre isso todos os dias. Não! Ele vai pensar que eu estou bêbado. Melhor não"

- Obrigado, pensando bem, o senhor pode me trazer o açúcar?

"Nossa, essa chuva não pára. E ela deve estar por aí E eu não estou indo atrás dela. Estou aqui, sentado. Então é assim que acaba? Um desencontro num café? Queria não ser tão confuso. Queria pode dizer a ela que a amo, que ela é tudo para mim, que cada dia que passamos juntos foram os melhores que vivi...ah, conhecendo ela bem, vai dizer “você diz isso pra todas!” ou então “por que não demonstrou isso?” Bem típico dela dar aquelas máximas que eu não consigo falar nada... engraçado,o rosto dela fica corado quando ela vai dar uma bronca.

-Obrigado. Eu acho que vou pedir um sanduíche também. Estou com fome.

"Ela dizia que eu como demais. Eu dizia que era ela e nós riamos. Teve um dia que convidamos os amigos para uma festa e a bandeja de brigadeiros “desapareceu” nas mãos dela. Ela ainda fez aquela cara deliciosa, suja de chocolate de “não fui eu” então eu a abracei e a beijei... os sabores se confundiram. Sinto falta daquilo. Outro dia, pra não nos esquecermos um do outro, ela comprou uma corrente. E eu, desastrado, deixei a corrente cair no chão e ir dirreto para esgoto. Pensei que ela se enfureceria, mas riu de mim enquanto eu estava agachado tentando pegar a corrente. E quando um carro veio e me sujou todo de lama ,ela mal pôde se conter. Comprei outra, mas me disse “não é a mesma”. Acho que ela teve medo. De que não fossemos mais os mesmos, como éramos, um para o outro.

_ Não, Garçom! Cancela o pedido do sanduíche! Eu estou de saída, eu preciso encontrar alguém! Aqui está o dinheiro,fica com o troco!

"Não vou deixar! Sei que ela está aí, nessa chuva! E eu vou correr atrás dela! Somos um para o outro, sempre fomos, desde o dia que nos conhecemos. E cada dia eu a amo mais. E não vai terminar assim! Essa chuva, esse vento! Será que era pra ser assim? Parece até que este cenário foi arquitetado...por que sinto que esta chuva tem um pouco das lagrimas dela? Preciso correr, não vai sair da minha vida! Não assim, não agora."

E os pontos se cruzam formando estradas.

14 Piruetas.:

Ariana disse...

Bela história!
Instigante até!
Gostei!

Beijo

Pri C. Figueira disse...

Olá linda!

Cada dia mais quando leio seus textos fico impressionada com sua habilidade de criação e dom na escrita!! Alguém já te disse para escreveres um livro??? Pois devias!!!

Bjusss... Amo vc!!!

Laura Bourdiel disse...

Sem muitas palavras... adorei o texto!

Amanda Bia disse...

existem certos lugares que trazem tanta coisa que passou que às vezes é melhor nem ir mais neles.
belo texto!
beijos!

Fernando Locke disse...

incrivel! olha,difere totalmene do seu estilo habitual. nõ fala em dança, não tem aquela poesia suave, não tem aquele "q" de menina moça. é mais sério,mais rapido, a poesia é mais trancada (isso não é ruim). gostei muito, um belo diálogo interior. é,a vida tem dessas coisas.

Filipe Garcia disse...

Que bela mistura, vocês três. Estilos totalmente diferentes se encontrando e casando de forma tão agradável! Achei a idéia fantástica, sugiro que façam mais vezes e, se puder, me convidem pra brincar de escrever assim também, rs.

Inté!

Míope disse...

Desencontros tem algo de mágico.
Não sei se é porque com eles as pessoas tendem a pensar de acordo com o que acham, ou se é por aquele sentimento terrível de frustração.

Bom, muito bom!
Achei bem interessante a mudança de estilos de escrita. Essas mudanças bruscas deixam o texto mais emocionante e mais real.

Fiquei com vontade de participar de um desses qualquer dia...
Se quiser me convidar...

hehehe
Bejo!

Jaya disse...

Oi, Ká!
:]

Tanto tempo que eu tava sem aparecer aqui, né? Daí resolvi voltar a escrever minhas coisas, e passei pra te acompanhar.

Engraçado esse triângulo. Essa correlação de pensamentos. De dividir momentos. De casualidades. Foi interessante a idéia relatada.

Parabéns a vocês pela parceria. Pela ousadia.

Beijocas.

Zé do Cão disse...

Deixar e ir a um sitio porque somos mal atendidos, mas em contrapartida sentimo-nos bem no lugar, não será contrasenso?
Uma reclamação mais ousada e ás vezes fica arrumado de vez.
Outras o arrumado de vez é nunca mais voltar.
Chuva é uma bençoa de Deus, como gosto de anda à chuva, que delicia.

Beijocas

Maria Fernanda disse...

Um é bom, três é demais. Ficou mais que perfeito!

PS: desculpa o sumiço. A inspiração me convidou para um passeio e eu não recusei. Precisei aliviar a cabeça e fugi daqui para não matar os leitores com as minhas palavras funestas...

PPS: tem presentinho pra ti lá no blog. Não sei se já recebeu, mas vale a intenção de presentear-te.

Beijo meu *:

i-relevante disse...

Ká,

Adorei seu comentário no meu blog. Obrigada mesmo. Foi uma daquelas coisas que faz o dia ser mais feliz. Beijão. Ps: Boa história. ;)

Lucas disse...

Este texto é lindo, amei...xD
beijo

Lena disse...

Lindo texto, amei, achei super romantico, perfeito..
ameii

Hoffmann disse...

o texto é derramado ainda, Karine. Tem frases e estrutura que dão uma artificialidade, um aspecto de texto forçado. Se eu tivesse escrito, não separaria com aspas nem com letras menores os pensamentos dos diálogos, porque isso não acontece com a gente. Muitas frases que parecem de efeito, me soam, na verdade, como poesia de menina: 'choraram palavras', 'chovendo por dentro', 'podes por favor trazer-me o açúcar','chuvas com lágrimas dela'. Outra coisa é 'mau-humor'. Essas frases e temas - lágrimas, chuvas, tristezas, amor, enfim -, são muito recorrentes, portanto, creio que quando se fala deles, tem que haver alguma originalidade. Não no sentido de inovação, que precises recriar tudo de um modo totalmente genuíno, mas fugir dos lugares comum é o grande ofício do escritor. Falar em lágrimas e em chuva, pra citar o exemplo, é chover no molhado. Quem não pensa em formar belas frases com essas palavrinhas?. De resto, acho que tu tem uma prosa fluída, escreve bem, mas tem um tom afetado ainda, porque não encontrou tua voz. Mas tenho certeza que tu tá melhor que ontem e menos que amanhã. Beijo.

 

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