quinta-feira, 19 de junho de 2008

O diário de Rute.


Ngunga pensava, pensava. Todos os adultos eram assim egoístas? Ele, Ngunga, nada
possuía. Não, tinha uma coisa, era essa força dos bracitos. E essa força ele oferecia
aos outros, trabalhando na lavra, para arranjar a comida dos guerrilheiros. O que ele
tinha, oferecia. Era generoso. Mas os adultos? Só pensavam neles. Até mesmo um
chefe do povo, escolhido pelo Movimento para dirigir o povo. Estava certo?

(As aventuras de Ngunga- Pepetela)

Rute não queria crescer. Como Ngunga, achava os adultos maus. Não entendia por que o pai insistia em quebrar as coisas da casa e a mãe gritava tão alto. Lembrava do irmão, que, quando mais novo, era tão gentil e cordial com ela. Porém, agora que entra na adolescência, só a enche de insultos e beliscões, trancando a porta do quarto e sumindo no meio de tantas roupas espalhadas e músicas em alto som, dizendo que já é adulto. Por isso as bonecas são tão boas amigas. Elas nunca crescem, embora envelheçam. Suas feições são sempre singelas e seus hálitos sempre de infância. Rute passava horas penteando os cabelos das amigas, confessando seus medos e contando as histórias que ninguém em sua casa queria ouvir.
Faltavam dois dias para que ela completasse nove anos, mas Rute não estava feliz. Nem mesmo a idéia dos presentes a animava. A mãe não percebia aflição da menina porque estava ocupada demais. Na escola, Rute contemplava seu nome escrito em canetinha verde no mural de aniversariantes, torcendo para que o dia não chegasse. Mas chegou.
Ela olhou a vela laranja em cima do bolo. Todos já tinham cantado parabéns e era a vez dela completar o ritual ao soprar as velas. Lembrou-se do que ouvira certa vez na igreja: "É preciso ser como criança para herdar o reino dos céus". Ora, ela queria o Reino dos céus, queria ser criança, ser adulto parecia complicado demais para a pequena Rute. Ela os via sempre atarefados por causa do tal do dinheiro, e por causa deste intruso diversas vezes não teve o que comer. Havia também a tal da bebida, que fazia tirava seu pai de casa. Ela não sabia o que era, mas a mãe sempre dizia que era culpa da bebida. A menina fechava os olhos quando via o irmão sair escondido de casa, porque se ela falasse, apanhava. E a tal da política? Afinal, era ela quem fazia as pessoas discutirem daquele jeito na televisão? E por que ninguém ajudava ninguém? Lembrou-se de uma vez em que foi com a mãe no supermecado. Foram comprar arroz e bife. Quando Rute olhou para o carrinho ao lado, reparou que este estava cheio, e, questionando a mãe, esta respondeu: "Coisas de adulto". Não, ela não queria soprar a vela. Saiu correndo e trancou-se no quarto, deixando a festa. Diante do espelho, esfregava o batão rosado que a mãe a obrigara a colocar. "Não quero crescer!", gritava diante do espelho.
O pai quase derrubou a porta de tão forte que bateu. Rute abriu e, de forma servil, sentou na cama a olhar para a parede. Ele respirou ofegante e disse:
- Volte já para a festa, ou te levo pelas tranças.
- Não quero.
- Volta agora!
- Não quero!
- Todo mundo está te esperando.
- Não quero, pai.
- Por quê?
- Porque não quero crescer. E ser como vocês.
- Vocês quem?
- Não quero ser como os adultos.
- Ora, deixe de frescura sua ingrata. Tu não sabes o que fala! Precisas é de umas boas palmadas, sua atrevida! Que falta de educação!
Rute apanhou em silêncio. Nenhuma lágrima desceu dos seus olhos. Engoliu a dor e voltou para a festa sem poder sentar-se muito bem, devido ao peso da mão do pai. No fim da festa, os amigos foram embora e ficou apenas os adultos divertindo-se. Falavam mal uns dos outros, olhavam-se de forma estranha. Em cada canto da sala um grupo falava de algo diferente. Rute estava ali, perdida no meio deles. Viu uma cadeira cair e o tio blasfemar contra Deus, seguido pela tia que respondeu com um palavrão. Percebeu que em um dos grupos os homens falavam de algumas mulheres... "Não são todos casados?" pensou ela, mas parecia que não. Do outro lado, falavam do mundo e do presidente... "Não são eles adultos como o presidente?", mas parecia normal falar aquilo; outros falavam da infância, de quando eram crianças... "Então, por que se tornaram assim?" pensava a menina.
Finalmente acabou a festa. Ela foi para o quarto e, tirando de dentro do vestido de uma boneca, trouxe um pequeno diário ao colo. Chorando, escreveu:
"Querido diário,
Hoje, 19 de junho, é meu aniversário. Completei nove anos. Mas eu não queria.
Mamãe disse que estou virando mocinha, o que também não quero.
Se ser adulto é ser tão egoísta, tão mau e tão arrogante, por que preciso me tornar assim?
Estive triste o dia todo, mas ninguém percebeu.
Tive vontade de chorar todo o tempo, mas ninguém falou comigo.
Papai me bateu, mas eu o perdôo. Afinal, ele é adulto.
Mamãe não me deu nenhum abraço, mas também a perdôo.
Sei que vou crescer um dia, pois não posso ser criança para sempre. Até lá, orarei todos os dias para que Deus, o único adulto bom que conheço, tornem os adultos mais crianças.
Com carinho,
Rute."

Seja você uma resposta para a oração de Rute.



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HORA DO MEME!
A Andréia me passou este meme muito fofo!


Três alegrias:

1- Servir a Deus
2- Minha família e amigos
3- Dançar

Três medos:

1- Perder alguém especial.
2- Ter alguma doença muito grave (acho que ninguém quer, né?)
3- Tenho medo de altura! =P


Três objetivos:

1- Casar e ter minha família.
2- Cumprir plenalmente as coisas que Deus colocou e colocará na minha vida.
3- Conseguir meu batalhado diploma e poder lecionar.

Três obsessões atuais:

1- Youtube (rs)
2- Café
3- Leitura (obcessão freqüente)

Três fatos surpreendentes:

1- Virei crente. Entreguei minha vida a Jesus. Surpreendente para quem conhece toda a minha história. E ainda vai ser muito mais!
2- Mesmo odiando matemática, namoro alguém que adora! E é agradável quando ele fala dela!
3- Eu já gabaritei uma prova de física! Acreditem, é surpreendente!


Repasso para: Bruna (Something), Butiá (Paraíso Perdido).

Beijos!

7 Piruetas.:

Pri C. Figueira disse...

Uauuuu
Que história linda... eu quero sim ser resposta para oração de Rute!!!!
Ahhh, se fossemos assim...
Um detalhe, eu lendo seu texto e olhando seu rosto pela foto, achei que te conhecia... és da BZN?
Se sim, sou de Rio Grande e legal te encontrar por acaso!!!

Lindo mesmo, tocou profundamente meu coração!!!

Virei aqui mais vezes!!

Bjs

Pri C. Figueira disse...

Oie... de novo!!
Obrigada pelo recadinho...descobri teu blog em meio a pesquisas na internet (rs) e um dia entrei e comecei a ler e me pareceu familiar, voltei mais vezes e agora resolvi perguntar!!!

Eu entrei nesse mundo dos blogs a pouco tempo, depois que comecei a fazer o blog da igreja e Deus começou a trabalhar algumas coisas e eu criei um..rsrsrsrs

Amei te encontrar, posso te linkar?

Voltarei mais vezes....

Bjussss

~Rute disse...

Fiquei emocionada com a homenagem. Adorei o texto.
É bem verdade que os adultos são assim. Infelizmente, né? =P
Mas, enfim... O texto tá lindo!
Que você continue sendo abençoada por Deus, e escrevendo mais histórias lindas assim...
Te amo!

Filipe Garcia disse...

Ah, depois que eu li "O pequeno príncipe", tive a certeza de que preciso cultivar minha criança diariamente. Sua história só veio me refrescar a memória das atitudes "adultas" que tenho tomado. Obrigado pelo convite: vou voltar à minha infância.

Um beijo.

Jaya disse...

Ká,

Tua história foi pesada. E ao mesmo tempo, encantada. Pela mensagem que você trouxe pra gente. Pelo abrir de olhos. Bonito, mesmo.

Beijocas, moça.
É sempre bom vir aqui.
:)

Dominique disse...

"A gente não faz amigos, reconhece-os."

Venha descobrir o sentido destas palavras no meu cantinho virtual.

Abraço cheio de carinho pra ti!

P.S.: O problema não seria crescermos, mas esquecermos que um dia fomos criança. A memória que nos falta da infância é o que nos mete em tantos problemas, amarga-nos a vida e impede que percebamos o mundo como antes. Se fossemos como Rute, lutaríamos para manter este tesouro que é nossa criança interior.

Elis disse...

nossa que historia mais bela..garota...muito boa...
crinças sempre somos crianças..a vida fica mais vida quando deixamos as nossas " As crianças.." viver...!

xero fofix!

 

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