quinta-feira, 17 de abril de 2008

A Sina dos Pampas.

"E aqui estou eu meu gaudério
em tempos de guerra e paz
sou aquela que te espera
sem saber se tu virás..."
(
Mulher Pampiana, Odilon Ramos)


Colocou a água na chaleira, cevou o mate, arrumou os pelegos em um canto da sala e correu para o quarto. Chegara a hora mais esperada do dia. Destrançou os cabelos delicadamente, fio por fio, deixando os cachos caírem até a pequena cintura. Sobre a saia bordada em esperas, as fitas formavam um caracol, desenrolando-se do emaranhado sublime que desfazia o trançar.
Da janela via o sol partir lentamente, trazendo a noite para brincar no pago. Ela então olhava ao redor de seu mundo, procurando algum detalhe que talvez tivesse escapado de seus olhos ao longo do dia. Tudo devia estar em ordem. Viu os peões de longe, esquentando o fogo ao som da gaita chorosa, defronte ao galpão onde guardavam o charque. Viu os cavalos em suas celas, as encilhas em seus lugares e o gado todo qüieto. Ao seu redor, a casa respirava saudade. Caminhou até a cozinha, serviu o mate e o deixou sobre a mesa.
Não contendo mais o trotear de emoções dentro de si, foi até a frente da casa. Lá, olhando para a estrada em meio ao campo, deliciava-se com a ideía do que veria ali. Estava breve o reencontro, estava perto o que dava sentido a tudo. Logo ele iria surgir, como uma luz a iluminar a alma, como o minuano a soprar as flores. Logo a paz retornaria.
Foi quando avistou o zaino de patas brancas, e, sobre ele, um gaúcho galopando rumo à tapera. Tudo nela agitou-se, não podia conter as mãos, era o seu peão que cortava o campo á cavalo, o seu porto, o seu chão.
O gaúcho ofegava distâncias, e corria a estrada como quem corre o tempo. Ao chegar perto da prenda, afrouxou as rédeas, desceu do cavalo e tirou o chapéu. Toda a rigidez que ele demonstrava amoleceu diante da prenda. Os olhos tornaram-se tenros, o falar mais doce.
Se, com todas as minhas pobres palavras, eu tentasse descrever a cena tal como ela sucedeu, temo que seria vão. Deixo agora que o leitor contemple um abraço demorado, onde os pés da moça perderam o chão, e seu corpo delicado sumiu por entre os braços do homem que elegera. O peão então sentiu o cheiro daqueles cabelos, que tanto o fizera penar de saudade em meio as pelejas por onde andou. Era sua prenda, sua dama, a razão pela qual voltara.
Ao chegarem na casa, ele tira as botas cansadas de chão batido, troca a bombacha que chorava revoluções, tira o lenço vermelho das sangrias. Toma o mate feito pela mão da amada, o mate com gosto de lar, com gosto de vida.
Ali, enquanto a gaita dança chamamés, os dois permanecem a contemplar o céu. E o peão esquece todas as lutas ao contemplar aquele cabelo vistoso, a pele macia, os olhos cor de mar. Nem mesmo todas as revoluções valiam a paz de estar no seu rancho e ter aquela prenda consigo.
Enfim, fecham a casa. E o gaúcho, em seu íntimo, fecha o mundo para que, pelo menos naquela noite, as armas dêem lugar aos encantos da esposa.
Ele sabe que partirá novamente, pois esta é a sina do gaúcho. Mas, enquanto o amanhã não chega, deixemos os dois a tecer nova espera, com fios de ternura para o bordar daquela mão pequena da morena, que tece um manto de saudade para cobrir o leito dos dias quando estiver novamente só.

PS: Visite o Jardim!

25 Piruetas.:

Bruna.K disse...

Que coisa mais linda, tchê!
Acho que de todos os teus textos o que mais me deixam empolgada são esses... :)

É muito bom ler teus textos gaudérios tão carregados da nossa cultura e das palavras, das cores e dos aromas da nossa terrinha amada! \o/

Além disso, não há como não ler sem pensar em Rodrigo Cambará e Bibiana Terra!
Viva Erico Verissimo!!

Sabes que amo teus textos... =D

Te amo!
Beijos mil...

Spuldaro disse...

Ótimo!!! Adorei!

Parabéns!! \o/

Fê Probst disse...

Texto lindo e tão regional...

Jaya disse...

Ká,

Finalmente apareci. E acho injusto ter demorado tanto. Mas agora eu tô de volta, e vou acompanhar isso aqui sempre.

Primeiro queria te agradecer pelos comentários doces que você me deixou esses dias. Obrigada, viu? É um prazer recebê-la em meu canto.

Sobre teu texto, ah que texto! Tão bem desenhado. Deu pra sentir o cheiro daqui. Peguei um pouco de regionalismo, de saudades, de amor, de desapegos, de volúpias... Tão bom ler o amor assim, dessa maneira delicada. Tão bom ler o amor aos teus olhos!

Adorei aqui, e teu link já está lá. Vou visitar o Jardim.

Cheiro.

Filipe Garcia disse...

Puxa vida... como você escreve bonito. A cena ficou na minha mente como se eu assistisse um filme ou um dos episódios de A casa da sete mulheres. O mais interessante foi ver o peão se render aos braços da amada. Por mais guerreiro e bruto que seja, não resistiu aos encantos da sua prenda e encontraram-se no abraço, fazendo dele um homem sensível e cheio de emoções.

Muito belo mesmo!

Andréia disse...

que lindo, belo e delicado!! tá de parabens... continue postando! vctem talento para escreveu

granndeeee beijo!

Lúcia disse...

E que a doce prenda borde mantos cada vez mais lindos pra quando chegar outra vez o gaúcho.

Lindo texto!

Beijos moça-bailarina! :)


p.s.: Quero uma sapatilha pretinha igual a essa aí de cima! Eu quero, eu queeero! rs!

Ariana disse...

Adorei o seu blog!

Tu escreve bem pra caramba!rs

Beijão

... disse...

Ká vim agradecer tua visita ao meu blog! =) E deixe-me elogiar a quem merece...rsrsrs vc escreve com excelência! parabéns! continue assim... orbigado por me linkar =) bjus!

* hemisfério norte disse...

obrigada pela tua visita e pelas tuas palavras gentis. e.....enquanto o amanhã não chega visita a arides do deserto
http://miniminimos.blogspot.com/
beijos de Portugal
a.

Zé do Cão disse...

Que é isto meu DEUS. Esta menina escreve com o sol a sair da caneta.
Os textos que já li, são espantosos.
Que faz esta Deusa? Em que trabalha?
Adorei e volto de certeza.
Beijos grandes deste Portugal distante

.linny disse...

obrigada pela visita e pelo link.

bju e esta linkada tbm.

simplesmente ana disse...

(um ano depois...)

gOria, valeu pelo coment...eu andei fora uns dias e nem vi que tinha! brigada por ter lincado, curti o teu tb!
bj

WILLIAM (Penso, Logo Escrevo...) disse...

Parabéns pelo Blog,
VC escreve texto que dão prazer de lê-los.
Grande abraço!

O Profeta disse...

Total é a loucura do querer
Breve é chama da doce paixão
Total e insubmissa é a verdade
Que emana do teu terno coração

Sigo os passos da tua procura
Queda-se teu corpo nu em melodia incompleta
És instante da bondade dos Deuses
O canto de uma ribeira que o sol desperta

Boa semana


Doce beijo

Jo disse...

oigalê rapariga tecedora de palavras! tá bom demais essa história..

Nyse Brito disse...

Muito lindo teu texto!
Chega a ser empolgante ler pois tem um vocabulário rico em palavras que não são presentes na minha região!
Adorei conhecer a sina de um gaúcho! =) E muito mais esse trechinho que tu colocou logo no início "sou aquela que te espera
sem saber se tu virás..."

Te achei por acaso... mas voltarei ao teu blog outras vezes!!

o Cronista disse...

linda narrativa. e gaúcha. tão bela qto a gisele!

Ludmila Prado disse...

ah! que lindo, amei a hitória, o amor, a saudade, o reencontro.

obrigada por link, volte sempre, será bem vinda.

um beijo

passarei no jardim

Dalaila disse...

palavras que tocam e que nos fazem crescer, voltar-me a mim

Lasombra Ribeiro disse...

Literatura Gaucha...
Elementos regionais e tudo...procuro por isso há tempos...

Eu, sendo um gaucho torto, não tenho essa vivência..fazer oq né...

Muito bom moça..gostei mesmo.

Estou linkando vc ok!!!

Mariana disse...

Ola! sem problemas, pode me link, gostei muito do seu blog tb,


bjos

v.carlos disse...

Mt suave e bem escrito seu blog!

De um encanto mt grande.


Parabéns!
Deus abençoe

Juliana Caribé disse...

"Ele sabe que partirá novamente, pois esta é a sina do gaúcho. Mas, enquanto o amanhã não chega, deixemos os dois a tecer nova espera, com fios de ternura para o bordar daquela mão pequena da morena, que tece um manto de saudade para cobrir o leito dos dias quando estiver novamente só."
Esse bordado deve ser o mais lindo do mundo...

Linda, obrigada pelos parabéns e pelo carinho. Sinto-me muito lisonjeada. E também gosto muito de você.

Beijocas.

Dominique disse...

Ah, e eu parada em frente ao monitor, de queixo caído, lembrando das cenas que tão belíssimamente Érico Veríssimo teceu em O Tempo e o Vento, como se mais um pedaço dos Pampas se despontasse à minha frente na intimidade da prenda e de seu amado...

Cheiro de mate, de terra molhada, de retorno para casa tem este seu texto, Ká. Dá vontade de seguir rumo para o sul e encontrar a felicidade que tão bem você descreve aqui.

Lindo conto, bela descrição, inacreditável escrita!

Um abraço a ti e, se me der licença, vou voltar sempre para visitar este canto tão pleno de literatura.

'Té mais!

 

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