sábado, 1 de março de 2008

Luz.



No dia em que fugi de casa, meti na mochila as lembranças empilhadas sobre as dores. Coloquei-as no fundo, para que o sacudir da viagem não viesse a afetá-las.
Guardei palavras nos bolsos, e todas as minhas economias de lágrimas na carteira. As chaves da memória e do silêncio ficaram guardadas do lado de fora, para facilitar o acesso.
Calcei meus sonhos, vesti meus medos, e deixei meu mundo na gaveta de minha cabeceira, onde eu sempre o guardava.


Não olhei para trás, apenas prossegui. E lembro de ter parado e sentido o céu. Foi então que ali, tão perto de mim, desenhado por meus anseios debruçados no azul extenso, ele mais do que nunca me fez criança.
Eu que tentava ocultar-me, fiz-me pequeno traço da pintura ao meu redor. Sombriei a paisagem. Havia em mim tal escuridão que diante da luz fez-se ponto esquecido.
Não era possível traçar dicotomias entre nós, nem mesmo procurar os traços que nos uniam. Era simples: somente diante da luz eu percebia o quanto era sombra. Fechei os olhos e senti a frieza de minhas dores enfraquecendo ao calor do céu. Eu conhecia o frio da noite, mas não sabia do calor do dia.

Sim, havia naquele céu algo mais do que o jogo de cores. Ele era meu descobridor. Por mais fugas que eu fizesse, amanhecia debaixo dele. Por vezes ele chorou sobre mim, e mudou suas primárias para cinzas sombrios.
Eu jamais o venceria. Ainda que andasse pelas sombras, me descobriria.

Admiti a derrota enfim, e o percebi cantar seu azul ao redor de todo o meu ser. E, pela primeira vez, tornei-me luz.


Peguei a mochila e voltei para casa, pois precisava descobrir muito de mim antes de descobrir o mundo.
Espalhei as lembranças na cama, tirei as dores guardadas...
Peguei as palavras do bolso e derramei-as sobre mim. Gastei as economias, manti minhas chaves sob vigilância contínua, enfrentei minhas vestes e mais do que nunca, permaneci com os mesmos sapatos.

Abri a gaveta com cuidado, e vi meu mundo tal como ele era.
E as sombras que me faziam fugir deram espaço a luz que me ficar.


6 Piruetas.:

Juliana Caribé disse...

Bonito! A luz tá sempre aí, mas a gente insiste em ver trevas, né?


Claro que não tem problema me colocar na sua lista de links. É um enorme prazer para mim. E, se me permite, você também estará na minha.

Beijos.

Mr. Ziggy disse...

Bravo! As metáforas e a forma subjetiva como trata da misericórdia e unção de Deus sobre a vida humana foi maravilhosa. Foi o texto sei de que mais gostei! Parabéns! Bjos...

Mr. Ziggy disse...

*seu

Fernando Locke disse...

muito bom! palmas a vc! sabe,me lembrou bastante a Clarice Lispector, comtoda a subjetividade e todas essas coias que não conseguimos explicar! abraço!

Alle Nascimento disse...

sensacional...

mas ao invés de fugir de casa, pq vc tão somente não foi, simplesmente viajar ?? - assim conheceria coisas, e pessoas, viveria situações, apreenderia com elas...
fugir parece-me também mais fácil, mas não o melhor a faZer...

abçs

O Profeta disse...

Bonito...elegante é a tua forma de dizre sentires...


Passou o dia sobre as cidades
Esquecido por esta estação
Uma flor deposita no vento uma semente
Este ribeiro leva consigo a ilusão

Secretamente a terra a recolhe
Guarda-a da voragem do vento
Espera que água a fecunde
Explode a vida a cada momento

Convido-te a sentir o toque pungente das trindades…


Boa fim de semana


Mágico beijo

 

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