terça-feira, 25 de março de 2008

Coisas que eu precisava te dizer.


Olá,

Sei que faz tempo que não nos falamos, e que este tempo criou distâncias, abismos, estradas.
Enquanto tudo passava, eu guardei perguntas não respondidas e lágrimas não choradas.
São tantas as coisas a dizer, que parte delas eu perdi com os anos. Mas o principal ficou, cravado em buracos incansáveis, disfarçados com falsos sorrisos.
Sei qual sua principal pergunta. Relaxe as mãos no papel, pois não tenho raiva de você. Confesso que por muitos anos tive, mas hoje não mais. Porém a revolta que senti era apenas um sinal da falta que sentia. Isto mesmo, revolta. Cada vez que eu soprava uma vela eu não via seu rosto entre os demais, algo dentro de mim se remexia de forma brusca, dolorosa, solitária.
Não pense que não me culpei. Foram várias as vezes que olhava suas roupas no armário imaginando que, se eu tivesse agarrado suas pernas naquele dia pedindo que ficasse, tudo poderia ser diferente. Não pense que foi fácil tentar entender os porquês.
Fiquei aqui agostos contínuos tentando ouvir seu barulho no portão; com um telefone chamando, sem resposta.
Tens noção de quantas vezes escrevi uma carta sem destino? Podes imaginar como dói saber que não atendes por não ter coragem de enfrentar a vida não-vivida que aqui deixaste?


Diversas vezes fui dormir sentindo aquele nó na garganta. Eu não podia chorar, por mais que quisesse. Havia alguém dormindo ao meu lado, uma mulher mais forte que eu, que estava ali, tentando fazer com que eu esquecesse de teu desleixo. A luta dela em fazer-me crescer tirava-me a coragem de chorar. E o choro guardado é pior que o chorado, pois torna-se lança constante no peito. E eu guardei as lágrimas, num canto só seu em mim.
Não pense que não as quis derramar, mas elas tornaram-se fortes. E eu ainda não as conseguia vencer.


Se me visses hoje, eu temeria não ser reconhecida. Trago traços daquela menina risonha, porém não sei quantas lembranças guardas. Deixaste uma menina, encontrarás uma mulher. Ainda não completa, mas em parte já formada. Isto mesmo, não me viste crescer. Suas recordações sobre mim não passam meus 9 anos, embora eu tivesse 11 a última vez que me viste.
Não viste meus boletins esforçados, nem mesmo foste ver minhas primeiras danças. Não estavas lá quando fiquei mais doente e precisei de cuidados. Não viste quando chegava irritada da escola, nem mesmo sentaste comigo para explicar-me da vida. Não me tiveste ao teu lado te pedindo para espantar meus terrores noturnos. Não conheceste minhas crises, nem mesmo presenciaste meus tombos. Não conheceste meu primeiro namorado, não viste minha formatura, aliais, nenhuma delas. Não descobriu comigo o meu nome na lista de aprovados do vestibular.


Foram momentos que formaram quem sou, mas não pense que não lembrei de você. Embora sejam muitos, eu guardo com ternura os poucos que tivemos. Sim, eu lembro das ondas que me fazias saltar, do leite morno pela manhã. Eu lembro de tudo.


Amadureci, e com os anos passou a revolta e ficou a saudade. Não, não tenho raiva, tenho amor.
Amor guardado por cada ano. Não te condeno pela falta de coragem em enfrentar a vida e nem pela imaturidade de teus atos. Não te condeno por colocar na bebida tuas forças e nas mulheres teus prazeres. Eu te perdoo. E saiba que as lágrimas guardadas hoje são derramadas diante de Deus, que as recolhe em Seu odre. Ele, com sua ternura de pai, restaurou em mim a tua imagem. E hoje eu sei que não tens mais o mesmo rosto, mas ainda tens o mesmo coração. E, nas poucas vezes que me ligas, e sinto na tua voz um traço de afeição, fico entregue ao sonho do reencontro. Porém, quando te somes como agora, sou tomada de um temor e tristeza por teu silêncio.


E volto a ter os sonhos de menina, nos quais te via chegando em minha porta.


Eu precisava desabafar.

3 Piruetas.:

Filipe Garcia disse...

Karine,
Estou aqui desse lado trêmulo. Seu texto me emocionou sem igual. Não sei a sua história, mas lembrou a minha. E eu admirei sua coragem de falar da ausência. Pra mim é difícil lidar com isso, tanto que não consigo escrever sobre. Mas quando li você, me senti tocado e absorvi cada uma das suas palavras, vivendo-as.

parabéns de verdade.

bjos

Juliana Caribé disse...

Karine,

Como o Filipe, tremi. Seu texto é muito bonito e eu pude sentir a sinceridade em cada palavra dele. Também já tive muita raiva do meu pai. Ele não me abandonou, mas, em muitas situações, foi intransigente. Hoje em dia, tenho por ele uma admiração e um amor que não têm tamanho, e vejo que tudo, mesmo as intransigências, de alguma forma me ajudaram a crescer.
Hoje meu pai é essencial para mim.
Fico triste que você não tenha um contato tão próximo do teu pai, mas saiba que as coisas não acontecem sem razão.
E você está certa em sentir só amor em lugar da raiva (ela só faz mal a você).

Muitos beijos e abraços apertados e carinhosos,

Ju.

Fernando Locke disse...

"E o choro guardado é pior que o chorado, pois torna-se lança constante no peito. E eu guardei as lágrimas, num canto só seu em mim.
Não pense que não as quis derramar, mas elas tornaram-se fortes. E eu ainda não as conseguia vencer."

Karine. seu texto foi belissimo, trsite mai belissimo. Meu pai não é ausente,mas como disse a Ju Caribé, muitas vezes foi intransigente, foi rude, foi grosseiro. Me magoou, mas o afeto que eu tenho por ele, os amor que ele me dedica, a força que fazemos um pelo outro, nao tem preço. Muito nobre sua atitude de perdoar ele, errar é humano,perdoar é divino. Creio que tudo na vida tem um motivo, tem uma razão. Não é a toa que as coisas acontecem, tem um DEus lá em cima que olha por nós e nos carrega nos braços quando preciso! grande abraço karine e parabéns pela coragem de desabafar.

 

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