segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Havia uma mulher que não acreditava em Deus. Nem na vida, nem em nada.
Seus dias se resumiam apenas em existir. O hoje, o agora, e nada mais.
Acordava de manhã, olhava na janela, e o céu era simplesmente o céu. Quando cruzava a rua em direção ao trabalho, não percebia nada além do que os olhos reconheciam.
Trabalhava em um hospital, onde apenas via homens lidando com doenças e imprevistos. E aquela cruz na parede era apenas uma cruz de madeira, aquelas pessoas que via muitas vezes com olhos fechados em uma espécie de oração, eram apenas escravas de uma lenda.

Certo dia uma paciente chegou. Estado grave, queimaduras em todo no corpo. Tudo tornaria as coisas mais fáceis se a paciente não tivesse apenas 8 anos. A moça que nada cria ficou responsável pelos cuidados da menina. Não se sentia indiferente, afinal podia nada crer, mas nem por isso nada sentia. Era lamentável ver o rosto daquela pequena marcado de forma dolorosa como grande parte de seu corpo. Quando voltava para casa, por vezes flagrava-se pensando na menina, e analisando dentro de seu intelecto se haveria possibilidade de sobrevivência com tantas queimaduras. Ela até queria que sim, mas sabia que era impossível. Nunca, em 12 anos de medicina, viu alguém sobreviver em tais circunstâncias, e a idade da paciente apenas piorava o caso.
Os dias foram passando, e a mulher admirava-se com a melhora da menina. Embora as queimaduras ainda estivessem ali, a menina era forte e gostava de conversar com as pessoas ao seu redor.
Surpreendia-se, pois para ela uma menina era apenas uma menina, e não podia sustentar-se tanto, pelo menos não por muito tempo.
Certa manhã, ao ir verificar as queimaduras, ouviu a menina dizer:
- Ele enviou você, obrigado. Ele sabe o que faz.
- Ora, bom dia mocinha.- Respondeu.
A menina a cumprimentava com o olhar.
- Ele enviou você- Repetiu.
- Ele quem? Ora, descanse. Voltarei mais tarde para vê-la.
Este breve diálogo repetiu-se ainda dois dias. No terceiro, a mulher questionou:
- Ora, ele quem, pequena?
- Deus, ele cuida de mim. Sempre cuidou. E ele sabe o que faz.
Os pensamentos da mulher confundia-se entre ironia e pena. Ironia porque o estado daquela menina não era algo a que podia-se atribuir um cuidado, e pena porque para ela fé era típico de criança, algo inútil, imaginário. Mas tentou disfarçar a resposta:
- Deus? Ah sim...
- Acredita, né doutora? Ele está aqui, não está?
Respirou fundo e olhou os olhos pedintes da menina.
- Sim querida, está.
- Ele me disse que vai passar. E eu estou muito feliz.
A mulher saiu da sala sentindo-se mais estranha do que o normal. Havia algo naquela menina que não podia ser explicado. A certeza daquela frase saída de lábios machucados possuía mais certeza do que todas as frases pronunciadas por ela em toda a sua vida.
Passou-se a semana e a menina resistia. Sempre ao pé de sua cama, sua mãe lia um livro de profunda aversão à mulher: A Bíblia. Mas era estranho a menina não receber mais nenhuma visita.
Um dia chega um homem ao quarto. A mulher reparava na surpresa da mãe, parece não saber como se portar. Ao tocar impessoalmente no assunto, soube mais da história da menina. A pequena morava com sua mãe em um bairro humilde. Os pais separaram-se e pouco depois a mãe entrou para uma tal crença. A família não aceitou.
O homem era o pai.
No outro dia, uma senhora apareceu. Era a avó.
Aos poucos os visitantes cresciam, acompanhando a garra da menina em lutar contra as queimaduras em seu corpo, causadas por um incêndio na casa de um vizinho.
A mulher tentava permanecer imune ao caso, mas era tarde.
- Viu quantas pessoas a tem visitado?- Falou.
- Sim. Estou feliz.
- É sempre bom ter família.
- Doutora, eu vou morrer?
- Morrer? Por que esta pergunta? Não, não vai, você é forte. E está muito bem, já consegue até sentar.
- Mas meu corpo dói.
- Sim, mas vai passar.
- Se eu morrer, não tem problema, eu sei pra onde vou.
A doutora pasmou-se.
- Como assim pequena?
- Vou para para o céu com Deus. Já viu como o céu é bonito? Deus vai me dar uma nuvem também.
- Sim, é bonito.
- Doutora, você tem filhos?
- Não.
- E sobrinhos?
- Sim, um da sua idade.
- Já falou para ele de Deus? Do céu? Minha mãe sempre me fala.
- Não muito.
- Não sei como alguém pode não crer em Deus, a vida seria tão mais sem graça.
- Sem graça? Por quê?
- Porque só quem conhece Deus sabe a verdadeira graça das coisas.
A doutora foi para casa pensativa. Talvez as palavras de uma menina de 8 anos explicassem o vazio de seu mundo. A partir dali, fez sua rotina aquelas conversas. A menina falava de coisas simples da vida, como o céu, as paisagens.
- Olho para tudo isso e penso que só pode ser Deus- Dizia.
Sua melhora ia progredindo, contrariando o que todos pensavam. Para a mulher, inexplicável, para a mãe, milagre. Não via-se mais na recepção do hospital apenas a mãe, mas uma família. As visitas do pai eram cada vez mais freqüentes e certa vez a mulher viu a mãe e o pai saindo juntos, com as mãos entreleçadas. Na outra manhã a menina disse:
- Deus devolveu minha família.
A mulher por vezes imaginou-se na situação da menina. No lugar dela, dentro de seu intelecto, ela entregaria-se. Não teria por que continuar, não teria um por que, a vida era simplesmente a vida. Mas aquela menina a intrigava. Ainda que sua pele causasse dores, ela sorria. Ainda que estivesse em um quarto de hospital, de seus pequenos lábios só saiam palavras de gratidão ao tal de Deus.
A menina sobreviveu. Embora seu corpo tenha levado marcas, nada impedia seu sorriso. Foram 4 meses até a recuperação. No dia de sua partida, a menina abraçava forte a mulher, e disse:
- Ele cuida de você também.
A mulher ficou olhando a pequena ir embora, levada por seus pais.
Ao sair do hospital, pela primeira vez olhou realmente o céu. E viu nele algo que seus anos de estudo e sua muita inteligência não saberiam explicar. Olhou para a vida, e viu que nela haviam mais coisas que iam além do que era aceitável ao que pensava. Realmente tinha algo mais. Pela primeira vez, pensou na morte não apenas como algo técnico, natural, mas como um temor. Aquela menina sabia algo que ela não sabia, sabia para onde ia. A mulher jamais pensara em tal fato, sua vida era tão atarefada que não sobrava tempo e pensar na morte parecia algo ruim. Mas para a menina não era. Por quê? O que aquela menina de 8 anos sabia de tão importante que ela, médica e adulta, não sabia?
No outro dia, ao retomar o plantão, atendeu um homem que veio à falecer. Ao dar a noticia a sua família, a esposa disse, com os olhos cheios d’água:
- Dói, mas ele está bem agora, está com Deus e este sabe o que faz.
Mais confusão na mente daquela mulher. “Como pode? É impossível”
“Que Deus é esse que salva um e rejeita outro?” Ela não entendia.
Pela primeira vez olhou para a cruz de madeira do hospital tentando ver algo além de uma cruz. “Será que isto existe?” Pensou.
Voltando para casa, passa por um rapaz. Este, sorrindo, entrega um panfleto. Ao olha-lo ela lê o seguinte:
“ O conhecimento dos homens é loucura diante de Deus. Só nele está o caminho. Pode você acrescentar um côvado à sua estatura? Hoje pode ser seu último dia, e o que vem depois? Ele decide o tempo de cada um, e ele sabe o que faz.” Abaixo havia uma oração.
Um tremor nunca sentido antes a invadiu. Era real. Não podia apenas ser um acaso. Foi para casa e pela primeira vez conversou com o tal Deus, seguindo o panfleto. Acordou e olhou em volta e cria na vida, seus dias não se resumiam mais em si mesma. Foi para o trabalho leve. Ao chegar, foi surpreendida pela recepcionista:
- Doutora, isto chegou para você.
Ao abrir um pacote com desenhos, reparou no bilhete que dizia:
“ Obrigado por me ajudar, eu sabia que você era especial.”
A recepcionista então disse:
- É da menina que estava aqui né? É algo incrível que ela tenha sobrevivido.
A mulher então respondeu:
- É, Deus sabe o que faz.

3 Piruetas.:

Mr. Ziggy disse...

Aristotélico e verossímil seu texto. Nos conduz passo a passo a um desfecho bacana, respeitando a doutrina de Cristo. Que as pessoas possam entender o que está por trás das suas palavras. Bjos!

Tiago Enes disse...

Oi

O Blog tá muito legal!
Bons posts!

Parabéns!

Abraço!


Se puder visite!!!

http://tiagoenes.blogspot.com/

Alle Nascimento disse...

sensacioanal!

 

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