quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Uma dose de Realismo.

Cerca de quinze minutos para beber um copo amargo e seco.
Eu ontem voltava do inglês, cerca de nove e meia da noite. Salvei a vida da Ana Lídia pela décima vez no mesmo dia, ao evitar que ela atravessasse a rua, mais uma vez sem olhar para os lados.
Quando fiz o mesmo percurso para a parada e esperava o Parque dos Maias, ele surgiu.
Minha primeira reação foi segurar a bolsa, temendo mais um assalto e a perda do meu celular. Perto de mim mais três mulheres, uma senhora de longa saia e duas moças. Depois de nos encarar por um longo tempo, ele começou a falar:
- Eu sou um bandido perigoso, sou violento, assalto para viver. Estes montes de saco que vocês me vêem carregar, eu mesmo consegui. Eu mesmo. Sou violento.
Ele parou bem na minha frente. Estava sujo, cheio de sacos que pareciam ter garrafas e com um machucado horrível no joelho. Mas os olhos dele... os olhos dele eram tão tristes!
- Mocinha, sou violento, tem uma moeda? Eu não tenho nada.
- Deus te abençõe. Eu respondi, depois de fazer o sinal de que não tinha nada de dinheiro.
- Deus? Deus? Mocinha, eu não tenho um real, assalto, sou violento, que Deus, que nada!
A senhora perto de mim abriu a bolsa e deu uma moeda de um real para ele, repetindo o "Deus te abençõe". Foi então que, depois de agradecer, ele demorou quinze minutos neste breve discurso:
- Vocês não sabem o que é passar por dificuldade. Não sabem o que é ter que dormir na rua e pedir dinheiro. Eu sou violento, mas não quero ser violento. Para mim um saco de garrafa vale mais do que a sua vida, senhora, e latinhas valem mais que a tua, mocinha! Vocês têm Deus. Que Deus possa fazer com que vocês cheguem em casa bem. Que Ele acompanhe vocês com a luz divina. Quando chegarem em casa, vão encontrar a família, vocês vão ter uma mesa com um prato, eu não tenho nem cama. Eu moro na rua há anos, eu sou violento, eu sou da rua. Mas vocês não, que Deus as abençõe! Vocês é que tem sorte! Deus? Deus nada, eu sou da rua.
Eu já assaltei e já machuquei, pra poder sobreviver. Vocês têm tudo, eu queria este tudo. Vocês têm Deus. Que Deus as abençõe!

Ficou um silêncio na parada do ônibus. Todo mundo ouvia, mas fingia que não ouvia. É o truque de quem toma uma dose querer parecer sóbrio.
- Vocês não sabem! Não sabem de nada! Deus que nada! Eu sou da rua.
Eu não conseguia tirar os olhos dele, e, como era a única que demonstrava atenção, por alguns momentos ele olhava diretamente para mim. Eu sei que estava bêbado, mas para mim, suas palavras me embebedavam de realidade. Em um destes momentos que olhava pra mim, disse:
- O meu desejo é que vocês cheguem bem. Que Deus acompanhe vocês, nos verdes pastos.
Verdes pastos? Peraí... Quem fala de verdes pastos e não lembra do salmo.


Meu ônibus chegou. E eu vi ele indo embora. Era cristão, foi cristão, só podia. Não apenas pelo jeito de falar, mas pela tristeza nos olhos. Quem é filho sabe onde é seu lugar. E aquela dor nos olhos era de um filho longe de casa.
Se fosse um homem violento como dizia, teríamos sido vítima de mais um típico assalto na Assis Brasil.
Mas em muito ele tem razão. Quando fala de que temos tudo. Um tudo que não valorizamos.
E ele é um dos muitos filhos longe de casa. E eu uma das filhas que tomou uma lição de valorizar aquilo que tem.
Eu sei que devia ter dito mais coisas, falado mais... Tchê, podia ter feito mais. Subi no ônibus triste.

E deitei-me na cama agradecendo pela cama, pelo travesseiro, pela vida em abundância e pelas misericórdias que se renovam a cada manhã, mas também pedindo que eu não seja a única que desfrute disso. E que eu aprenda a valorizar os detalhes do cuidado de Deus na minha vida.


Você já fez isso hoje?





1 Piruetas.:

Luis Fernando disse...

Karine, esse seu texto comseguiu transmitir uma realide que existe ao nosso redor e tentamos não enxergar, o cruel e duro mundo das ruas. Pelo menos você aprendeu uma lição e tenta ensinar isso a outras pessoas. Muito bem!

 

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