quarta-feira, 7 de novembro de 2007

No ônibus.

É mais um dia de trabalho.
Ela sai correndo pois é 07:01 e o ônibus passa as 07:05. Não quer atraso.
Chega na parada e acelera o passo ao vê-lo. Sobe, senta. O ônibus está vazio. mas não tarda em lotar. É assim esta hora da manhã. Tem sorte de pegar antes, pois ainda pode escolher o lugar que prefere, como se escolhesse outro além do primeiro dos mais altos, lado esquerdo, "é mais fácil para cuidar a parada". Pensa em cochilar, mas está totalmente sem sono... Começam a subir pessoas. Todos os tipos possíveis de pessoas. Nos seus pensamentos doidos, começa a imaginar quem são cada uma delas. Examina a mulher ao seu lado, "crente", deduz. Esta mulher está com uma saia que vai até a panturrilha e calça umas sandálias batidas, destas de solado baixo. Veste também uma camisa branca com botões e uma espécie de palito prende um coque mal feito no cabelo negro. O rosto não é ruim, e tem uma beleza diferente. Está com uma bolsa marrom, de couro cuidado, que apresenta um volume semelhante a um livro, "a bíblia", pensa, e ao vê-la abrir a bolsa percebe que na verdade são dois livros, e um realmente é a bíblia. Retira o outro: "Ele escolheu os cravos". Avalia o livro com precisão, "Já li, é bom este Max Lucado, ótimo livro". Repara em um homem de pé em frente ao banco, ele veste jeans e uma camisa verde. Sua imagem transmite um teor muito alto de vulgaridade. Ele repara na moça "crente" e tenta um flerte com os olhos. Em vão. Alegrou-se com isso e teve vontade de puxar assunto com a moça, falar de como andam os dias e de Deus, mas a mulher se levanta anunciando que sua parada é a próxima. O homem senta, "que nojo". Um pouco adiante há uma moça de calça e blusa justa, "moda ridícula, esta provavelmente não é cristã". Ao surpreender-se com o tom de julgamento dos seus pensamentos, desvia de assunto. Tenta pensar no dia, no trabalho, na família... O homem tenta o flerte com a mocinha de roupa justa, e esta responde de forma mais vulgar ainda. "Nojo, nojo, nojo". No banco da frente há uma senhora com uma criança de cabelos loiros, que vira-se e abana umas três vezes a cada minuto. Ao seu lado, um rapaz dorme encostado ao vidro. Pega um livro para distrair-se.
"Está quente, não?" Pergunta o homem ao seu lado.
"Pois é..."
"O que você está lendo? Um romance?"
"Não"
"É sobre o quê?"
"Ficção científica."
"Você parece ser inteligente, além de bonita. Que mais gosta de fazer?" O homem chega mais perto, encostando sua perna na dela.
"Ler em paz no ônibus" E recolhe a perna.
É, funcionou. O homem pareceu notar que ela queria silêncio e distância.
A mãe com a criança levanta. Senta-se uma moça. Está com uma grande mochila, fones no ouvido, chiclé na boca e livros na mão. Típica estudante. Mexe a cabeça e descobre que um dos livros em sua mão é de Machado de Assis, Quincas Borba. "É o vestibular, com certeza". Repara que sobe um senhor muito idoso, que permanece em pé na parte da frente do ônibus. A expressão desse homem é tão fria, tão pálida, tão triste, que dói a alma. "Incrível como têm pessoas que transparecem a vida no rosto". Entristeceu apenas olhando o homem. Atrás dele sobe uma mulher com roupas cuidadas, cabelo escovado, salto e bolsa de marca. A mulher tem pressa em passar a roleta, e acaba empurrando o homem, que, levado também pela força do freio e fraqueza dos membros, caí em cima de um dos bancos. Aquela que empurrou nem vê, e se percebe não se preocupa em demonstrar. O senhor tem dificuldades em levantar, devem pesar os ossos depois de certa idade. Para o cobrador, o homem se recupera; para o homem, tudo é passageiro; para quem vê, tudo é sofrimento; para a mulher, ele não existe. Vira a cabeça e olha a janela, "viagem longa e chata estes 45 minutos". Nos bancos de trás há um grupo falando alto algo que ela não consegue entender. Dão risada, fazem piadas, batem no ônibus. Levanta um garoto. "Desce, desce" ele grita. Em vão. Passou a parada. "Parece que ainda não aprenderam a tocar a campainha". "Desce, cobrador!" repete o garoto, o ônibus freia bruscamente e todos são levados para frente. Ouve-se um barulho que vem da frente, é aquele senhor de novo. O garoto desce reclamando e o grupo protesta nos bancos derradeiros. Senta um casal atrás dela, "era só o que faltava". Trocam juras e combinam programas. "Promete que vai me amar sempre?" diz a moça, "Sempre" responde o rapaz. "Oh, que dramático!" ela pensa. Deixe estar, um dia também terá com quem sentar e trocar juras.
Há um homem que olha o casal e demonstra tristeza. "Deve ser dor de amor". É chato pegar o ônibus e ver os outros sorrirem quando se quer chorar. O homem vira o rosto, se mexe, se intriga. Pega o celular, guarda, pega de novo. "Eu, hein..." ela pensa.
Olha a janela e vê que falta pouco. "Mais uns quinze minutos..."
Toca o telefone do homem ao seu lado: "Meu amor, já estou chegando...me espere em frente ao shopping, também te amo."
"O safado tem mulher". Ela também percebe que ele puxa um pedaço de papel e nele digita uns números, escrevendo logo embaixo: "Rodrigo". Logo se entende por quê. A moça, aquela das roupas justas, está atravessando para descer, e sorri ao receber o papel. "Meu Deus, meu Deus..."
Repara que sobe uma mulher de olho roxo. "O que será isso?". Ela anda de cabeça baixa, como quem tem medo das pessoas. Segura uma sacola plástica e só levanta a cabeça para falar umas poucas palavras ao cobrador. Quer saber a parada do hospital. Mil pensamentos vêm ao vê-la. Parece mais um objeto do que gente, daqueles empoeirados, utilizado apenas para adornar a sala em um canto. "Triste". Uma confusão de sentimentos ocorre, a tristeza da mulher, a felicidade do casal, a concentração da moça que lê Machado, a lascívia do homem ao lado, e muitos outros cheiros que exalam de tantas pessoas diferentes. Chegou sua parada, ela se levanta. "Com licença". Passa com certa dificuldade em direção à porta. Vê de relance um rapaz, sentado, com roupas largas, e um fone tão alto que todo o ônibus escuta. "incrível como ele consegue usar uma peça de roupa de cada cor".
Desce do ônibus. "Ufa!". Se sente meio tonta, meio fora de si. Caminha ao longo da rua em direção ao seu trabalho. Em sua cabeça, histórias não terminadas passeam. Moça que lê Machado, mulher de olho roxo, homem que sofre de amor...
Incrível como diversas histórias compartilham do mesmo espaço a cada manhã.

1 Piruetas.:

Mr. Ziggy disse...

Oxente, mas que pessoa mais bisbilhoteira essa que narrou a história! HUAAAAAhuauauhahuahuuhauha! Oxente... até o livro dentro da bolsa da crenta ela viu. Tsc, tsc.. Se essa narradora não fosse fictícia, eu ia dizer assim pra ela: "Bah, tchê! Vigiiiiiiia, irmã!" Uhuhuhuhu!

 

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