terça-feira, 10 de julho de 2007

Lembrança

Lembro daquele dia. Lembro como se fosse hoje. A garagem estava repleta de balões e cadeiras, e, no meio dela, aquela grande mesa cheia de doces, salgados e com uma "nega maluca" coberta de calda de chocolate... Lembro que o tempo cheirava a flor. Havia risadas no vento e eu movia o pescoço tentando fazer com que o elástico daquele chapéu colorido não me machucasse. Tarde demais, eu o rebentei e, como quem se livra de uma algema, atirei o chapéu longe. Caminhei pelas pedras que traçavam o caminho da garagem até a casa e devagar entrei na porta. Não cheirava mais a flor, cheirava a cerveja. Ali os homens se reuniam em torno da televisão, fascinados por um jogo de futebol. Como se deslizasse eu me encaminhei até o quarto... E fiquei ali, parada, olhando... Era uma grande caixa... Nossa, como era grande!!!Virei os olhos e vi que em cima da minha cama jaziam pacotes abertos. Havia um vestido laranja com uma estampa floral e também outras peças de roupa; havia também uma espécie de caderno, porém com um cadeado e uma caneta. Eu forcei a vista para tentar, com minha pouca compreensão, ler o que dizia na frente do caderno. Consegui. Era um tal de um diário, como se eu soubesse o que era aquilo. Confesso que eu fiquei curiosa, mas isto eu iria descobrir mais tarde. Vasculhei os outros pacotes e vi presilhas para o cabelo, meias, ursos... porém nada se comparava áquele pacote. Grande, sedutor... Não resisti, rasguei o papel com tanta intensidade que o desfiz em vários pedaços. Fechei os olhos para surpreender a mim mesma e contei até três... lá estava ela! Linda, nova e amável! Vestindo rosa, sorrindo para mim! Não pude me conter, a abracei com tanta força que por um momento quis que tudo sumisse enquanto durasse aquele abraço! Ah, como era bom abraçá-la...

Foi então que ouvi a voz que me chamava da garagem. Dei um pulo e a enfiei dentro da caixa com tanta pressa que mal pude me despedir. Estendi as cobertas de minha cama e corri rumo ao trajeto da garagem. Vi as crianças ao redor da mesa, e subi em uma cadeira para poder apagar a vela que estava no bolo. Ela moldava um sete, mas eu moldava tudo, menos minha idade. Queria a festa, o bolo, a música... mas mais do que isto eu queria a minha boneca! Lembro que fiz pedidos rápidos e com um sopro só apaguei. Tá certo que ela acendeu mais duas vezes, mas eu a apaguei mesmo assim. E deixei o dia virar noite, correndo na volta das paredes e dançando sem nem saber a música. Acabada a festa, fui deitar. Porém assim que as luzes se apagaram, lá fui eu deslizar novamente até o lugar onde estava a caixa. Delicadamente tirei meu tesouro de dentro da caixa e o batizei de meu. Dormi, prendendo em meus braços a filha de minha infância. Senti pela primeira vez que eu colocava alguém no meu mundo, que não era um amor pronto, aquele que eu sentia desde sempre, mas um amor meu, nascido em mim, cravado. Vi que aprendia a amar.

Hoje ela ainda está lá, marcada pelo tempo, suja de minhas alegrias, mas ainda é ela. Enfeita minha cama com seu ar de lembranças. Envelheceu... Já não parece a mesma, ou vai ver eu que já não sou a mesma. Olho, e ela me traz tanta saudade! Por vezes senti o desejo de colocá-la nos meus braços e me inclinei para fazê-lo, mas lembrei de tantas coisas que tinha para fazer que foi tudo momentâneo. Hoje, olhando para mim através dos olhos dela, vejo que aprendi a esquecer também. Aquele amor gerado em mim, onde está? Percebo que minha boneca foi peça de meus sonhos, mas que hoje apenas os enfeita. E temi.

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