terça-feira, 20 de outubro de 2009

Mia Couto.

"Gilda, a mais velha, sabia rimar. O pai deu contorno ao futuro: a moça seria poetisa. Mais ela versejava, menos a vida nela versava. Esse era o cálculo de Rosaldo: quem assim sabe rimar, ordena o mundo como um jardineiro. E os jardineiros impedem a brava natureza de ser bravia, nos protegem dos impuros matos. Todas as tardes, Gilda trazia para o jardim um volumoso dicionário. O gesto contido, o olhar re grado, o silêncio esmerado. Até o seu sentar-se era educado: só o vestido suspirava. Molhava o dedo sapudo para folhear o grande livro. Aquele dedo não requebrava, como se dela não recebesse nervo. (...)
E o coração de Gilda se despenteava. Mas logo ela se compunha e, de novo, caligrafava. Contudo, a rima não gerava poema. Ao contrário, cumpria a função de afastar a poesia, essa que morava onde havia coração. Enquanto bordava versos, a mais velha das três irmãs não notava como o mundo fosforecia em seu redor. Sem saber, Gilda estava cometendo suicídio. Se nunca chegou ao fim, foi por falta de adequada rima. "



Eu te amo, Mia Couto.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Dois.

E cada vez que eu percebo tua vida ao redor da minha, tudo em mim se cala. Porque a minha voz, andarilha de luzes noturnas, ainda não conhece o dueto. Entenda, minha música sempre foi só e é por isso que me calo sem saber o tom dos teus versos. Não sei transbordar dividindo. Não sei dividir o que transborda.
Sempre fui minha sem nunca o ser, e tua, e da vida. Sempre fui som de muitos silêncios, todos meus. Me acostumei a ser a trilha sonora do meu monólogo, da minha estrada. Sou a visita constante da minha própria mesa, jantando minhas palavras temperadas com olhares, pegando todas elas numa só colher e calando, calando numa só garfada. E elas me deciam tão amargas que raspavam toda a garganta, faziam tumulto em mim, reviravam meu ser e finalmente sumiam, digeridas. E aí você surgiu.
Surgiu como quem já me conhece, já me viu, já me versa. Castanho como na lembrança que eu nunca tive, invasor, convidativo. Cercando minha vida como se já pertencesse a ela, estendendo a mão pro meu futuro; tudo, tudo tão facilmente, que desconfio que você sempre esteve ali, perto. E eu tive ainda mais certeza que não sei ser par, nem ler olhos, nem nada além da nostalgia que você me causa.
Por isso aviso que não sei ser dois, simplesmente porque nunca soube exatamente como ser um. Aviso que sou atrapalhada das piores espécies, ansiosa, sentimental. Sou ilha de mim por falta de real habitação. Sou a mescla de uma menina dócil com uma velha rabujenta. Tenho meus momentos tristes, alegres, sutis. Tenho crises. Sou tão azul quanto o vermelho é amarelo. Sou tão normal quanto a loucura permite. Tenho manias, daquelas que você mais odeia, e engoli todas as palavras que você queria ouvir.
Pense bem quando lançar estes olhos em mim, moço. Não me convide assim. Eu sou uma tragédia por natureza, uma bomba armada para dez mil explosões. Sou o exagero em pessoa, uma hipérbole sem cura. Não me deixe entrar.
Permita que eu escape desta tua cerca e continue assim, de longe. Porque eu não posso ser dois, ao menos que você saiba ser um: por mim, para mim, em mim.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Por onde eu ando...


É blog abandonado, livros não lidos, trabalhos não feitos, projetos não inscritos, aulas não planejadas, blog's queridos não visitados, coreografias não decoradas, contas não pagas, filmes não vistos, programas cancelados, tudo, tudo atrasado...
Mas deixa eu dizer onde estou.
Eu fui passear num domingo cuja duração é de segunda a sexta, debaixo dum sol do meu janeiro vestindo short e camiseta. Chegando lá, pedi um sorvete de morango, sentei na grama e li Florbela. E a tarde? A tarde era bela, gostosa e sem telefones. Depois eu fui ver o mar. A água bem geladinha me convidou pra um mergulho, e eu fiquei horas pulando as ondas e conversando com Deus. Saindo da água, fui dançar na calçada e meu príncipe me encontrou. Fomos ao cinema prometido, ao jantar prometido e ao passeio prometido enquanto ainda era dia. Quando chegamos em casa, tomei um banho sem pressa, quebrei todos os telefones e rasguei todos os meus polígrafos cujo assunto não era literatura. Após liberar minhas emoções, visitei os blogs queridos e deixei longas exclamações sinceras. Também tomei um café na rua, enquanto escurecia, e comi sem medo de engordar e não caber no tutu de bailarina. E tinha todos os tipos de guloseimas no meu café, enquanto eu lia Baudelaire badalando no sol que ia embora. A noite vinha chegando enquanto eu assitia todos os filmes dos meus amores e eu resolvi dormir na rua. Estendi meu castelo entre duas árvores, e, debaixo das estrelas que apareciam, fui ler Provérbios e orar, por tudo e por todos. Quando pensava no que fazer a noite, resolvi sair e caminhar, coloquei um exemplar do Bandeira debaixo do braço e, desde então, nunca mais me vi.
Se por acaso você me encontrar, por favor, me dê um novo relógio e um novo dia com 72 horas.
 

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