segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Fuga


Fugir. Para um lugar em que o vento me leve. Onde eu me apaixone até mesmo pela grama. Onde a chuva escorra meu passado pra trás.
E que assim eu tenha um encontro com quem tanto me desafia, divide, quem tanto me dói. E então, encontrando a mim, eu me vença para me perder sonhando o que deixei pra trás, de novo, de novo e quantas outras vezes forem precisas para que eu aprenda a não desistir mais de mim. 

Fui me abandonando aos poucos, como quem deixa de usar um vestido. Me deixando para trás. E quando dei por mim, já não sabia mais em que parte do caminho havia deixado meus sonhos. Como juntá-os?

Poderia viver mais tempo com uma versão limitada. Escondendo na caixa do meu peito tudo que "já foi". Suportaria, se não fosse você provocar o meu regresso. Ficaria, se não fossem tuas palavras transbordando tudo o que eu já disse, numa época em que eu acreditava. Desistiria, se não existisse em mim o desejo de sempre voltar.

Me vi nos teus olhos e desejo retornar a mim. 
Resgate-me. 



sábado, 20 de julho de 2013

Mobília em par.

Essa coisa de viver sozinho é complicado. Não se tem com quem dividir a margarina da geladeira, nem mesmo a quem culpar pela louça suja no final do dia e de nada adianta o sofá de dois lugares, afinal, usa-se apenas um. 
A realidade é que toda a mobília acaba sendo projetada para, no mínimo, dois. Dificilmente as mesas possuem apenas uma cadeira, ou os sofás apenas um lugar (salvo o caso das poltronas). Ninguém encontra conjunto de um prato só, ou talheres para uso de um. E os copos? Normalmente vendidos em conjunto. Nem mesmo os potes querem se salvar de seus iguais. E, ainda que a cama de solteiro seja confortável, nada melhor do que um bom edredon - de casal - para passar o frio. Até a comida congelada vem com o aviso de que "serve duas porções". 
Porém, o que ninguém nos conta, é que viver junto é mais complicado ainda. Tem sempre uma meia intrusa no meio da sua gaveta, um chinelo no meio da sala ou aquele desejo de comer o que ficou na geladeira mas que, na hora H, você percebe que o outro já comeu. Tem que pensar a janta por 2 (ou mais) e sempre descobrir que o leite acabou bem na hora do seu café. Tem que dividir o sofá, a cama e a máquina de lavar, separando as cores das roupas e aquela camisa que você já disse mil vezes que vai jogar no lixo. Tem que enfrentar o duelo do controle remoto, dividir o wifi, perder o livro que você jura que deixou naquele exímio lugar. E, acima de tudo, tem que dividir a sua filosofia de vida, por inteiro, pra poder acordar vivo no dia seguinte.
Assim, filosofando, a gente descobre o segredo das mobílias: vale mais a pena penar a companhia alheia do que penalizar a si mesmo com a solidão. É dividindo a porção diária que o encantamento se torna certeza total de completude. Porque o amor nada mais é do que encontrar um motivo real para que alguém use seus copos e te beba, inteiro. 
Assim, descobre-se a alegria de amar e encontrar a si mesmo refletido no travesseiro de um outro. 





quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Catarse

Por vezes pensei que os livros tinham enganado meus sonhos. Eu me pegava esperando a narração, a catarse, o desenrolar dos meus dias tal qual o enredo de um romance. Cheguei a me engravidar de histórias e dar a luz, dia a dia, a um lado diferente de mim, colecionando máscaras que me aprouvessem o uso. 
Viajei, da forma mais real que alguém poderia pisar chãos diferentes dentro do próprio peito. Vi, por trás dos meus olhos, as cores da minha alma refletidas em páginas. Desejei ser tinta somente para derramar palavras no branco pesar da minha realidade. Ser a pena na mão do escritor, aquela que vive,  por breves instantes, todo o contentamento de dar a vida sem a viver. Busquei, através de todas as janelas, algo que me fizesse saber o que me esperava do lado de fora de mim. E assim te vi passar. 
          Tu caminhavas contrariando o vento, como quem dança. Trazias os braços feridos, porém abertos. No olhar, uma eternidade escrita sem palavras, um rodar de estrelas, amor em forma de cor. Teu corpo balançava histórias, que eram sopradas na tua direção apenas para serem encontradas por ti. Teus lábios traziam um sorriso de manhã de Natal e cantavam versos que se espalhavam no caminho.
          Te olhei e percebi que tu não eras como os livros diziam. Muito menos como a história desenhava. Derrubaste minhas muralhas enquanto vinhas em minha direção, penetraste a narrativa da minha existência. Suavemente, o repuxo das tuas águas me chamavam para perto e eu, criança em pleno mar, cedia, atraída pela tua imensidão.
        Estendeste as mãos, e nelas vi a pena do escritor perfeito. Assim, descobri teu segredo e sorri, desfrutando por fim da minha catarse. Entendi que tu não eras apenas o Poderoso, o Extremo, o Inabalável. Tu eras a simplicidade, o sorriso, o comum, a chuva, o sol. Tu eras o sopro que balançava as árvores,  o narrador do amanhecer. Enfim, te desvendei: Tu eras poeta.
             E entendi que até a minha sede pela concepção do verso era uma forma tua de juntar nossos caminhos. Alegre, corri na tua direção, como a inspiração corre para o escritor.

Poete-me, e serei verso simples, precioso e eterno.


Inspirado por "Conversão", de Luciano Martini, e pelo Workshop de poesia dele no Ministrart. 
Vlog do Luciano neste link aqui.
 

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